Quantos de nós vivem os seus dias em fuga? Não dos ladrões, dos bandidos, dos meliantes. Fuga de nós mesmos. De toda a gente de quem podemos, devemos ou queremos fugir, nós mesmos somos os mais perigosos, aqueles de quem fugimos mais. Percebe-se porquê. Sabemos demasiado sobre nós mesmos. Sabemos mais que todos os outros, embora todos os outros se sintam mais capazes de nos ler do avesso. Podem dizer o que quiserem, podem, a nosso respeito, tecer as mais elaboradas teorias. E no entanto, quem de nós mais sabe, somos nós. Temos tudo cá dentro. E por vezes é tanto, e tão incómodo, que preferimos ir passear e comer caracóis, distrair a cabeça com banalidades, fechar a porta, desligar os ouvidos.

Nós sabemos muito bem o que queremos. A nossa voz sabe. O coração bate. O cérebro manda sinais para o corpo. As coisas que funcionam, os arrepios na espinha, os tremores. O corpo sabe. Sabe sempre. Somos felizes? Somos infelizes? O nosso caminho está certo ou errado? Sabe alguém isso melhor que nós? Nunca. De forma alguma. Não é algo que se ganhe com distanciamento, com perspectiva. É algo que vem de dentro, de cada um. Sem mais. E nunca menos. Fazemos as perguntas certas a nós mesmos? Somos capazes de lhes responder? Ou optamos por desviar o assunto, ignorar, entrar em letargia?

(É fodido olhar para dentro pá. É fodido. Dói demasiado. É travessia difícil, que abana tudo. É turbulência de atirar malas para fora do sítio e partir asas. É coisa para nos atirar ao chão com uma violência terrível. É coisa para crescer, também. Para nos definir. É coisa para gritar. Raios. Que cordas são estas? Que correntes? Porque me despedaçam? Porque me puxam com tanta força, porque choro tanto? Eu corro tanto, eu faço tanta força, e acordo já tão cansado, e só queria as mãos na minha cara com um beijo. Queria que me secassem as lágrimas. Que me acalmassem a dôr. Já são tantos dias a ser torcido, centrifugado, apertado. Tanto tempo a ver passar os aviões que voam para longe, tanto tempo a perguntar coisas para as quais as respostas não chegam. Não aceito a fuga. Não pode ser assim. É tão estreito o meu caminho, e eu preciso sentir que vale a pena. Que o faço para alguma coisa)

Vamos fugindo entretanto. Vamos fugindo de nós mesmos, mais depressa do que fugimos de um atacante. Virando as costas a um compromisso connosco e com a nossa verdade. É talvez por isso que vivemos vidas em muito amorfas, contentinhas, levadas nas opções que julgamos ter tido. Poucos entre nós decidem olhar para dentro. É sempre mais fácil olhar para fora, porque as vidas dos outros são isso mesmo, as dos outros. Uma palavra atirada boca fora estraga menos do que uma pensada cá dentro, sobre nós, se fizer eco, se for aceite, se for verdadeiramente verdade.