Sentimento de Urgência

Lembro-me de ter, talvez, uns seis ou sete anos e ver nas telenovelas, na televisão, os beijos na boca – supõe-se que com língua – e pensar para mim que tardava o momento de também eu beijar assim (hoje sei que não desenvolvi da melhor forma esse talento, mas cada um especializa-se numas coisas em detrimento de outras, e o que não faço sentir no beijo, faço sentir em algo diferente). Recordo-me, também, de ser já adolescente e querer, muito, ter relações sexuais. Viria a tê-las numa idade que muitos considerarão tardia, o que fez com que durante alguns anos me sentisse, posso dizê-lo, desesperado. Mas elas vieram, e quando vieram não senti ter perdido nada. Ou antes, dito de outra forma, quando finalmente comecei a ter relações sexuais, não senti saudade de algo que não conhecia, e não lamentei as fodas não dadas antes da primeira. Dediquei-me a viver as fodas que tinha, e nada senti pelas que não tive antes. A vida dar-me-ia muitas fodas doravante. E, em abono do que então senti, posso dizer que desde então já muitas vezes me senti fodido.

Recordo palavras da minha mãe que muito me disse que esta juventude (a minha) queria viver tudo muito depressa. Que descobriam tudo muito depressa e não guardavam nada para depois do casamento. Era a maneira que ela tinha de dizer que se os jovens faziam, em solteiros, tudo quanto podiam, fodendo até partir, o casamento já não traria um objectivo novo senão a junção logística e partilha de aborrecimentos (o que em si mesma é uma visão discutível). Pretendia ensinar-me, de algum modo, que para tudo existe um tempo. Não tive esse talento (e já lá vão dois talentos inexistentes, o do beijo e o da espera).

Quando, passando por um corredor de supermercado, dou por mim a pensar neste sentimento de urgência, de tudo viver não agora mas mesmo ontem, não me alheio. Não projecto isto para outros. Os outros têm este sentimento, e eu também. Também eu tenho pressa. Também eu quero tudo a correr. Tenho medos diversos. Notem: tenho medo de morrer antes de; medo de adoecer antes de; medo de perder algo ou alguém antes de; medo de não ter a oportunidade antes de; medo de já não conseguir aproveitar se. É triste (não?) este sentimento de urgência alimentado pelo medo.

Não me atrevo, naturalmente, a negar que há momentos na vida que merecem que algumas coisas aconteçam. A nossa existência tem alguns compartimentos móveis onde mais facilmente se encaixam alguns dos nossos desejos e necessidades. Mas o sentimento de urgência que nos invade é muitas vezes estranho a esses compartimentos. E quase inexplicável. Insano, a espaços. Consome-nos a ideia de não poder ter já tudo quanto sentimos que nos pode trazer bons momentos. Sabor de felicidade.

E no entanto, talvez não precise ser assim. Nas voltas que a vida (nos) dá, não fechando portas com chaves que se atirem ao rio, talvez consigamos transformar os sentimentos de urgência em algo diferente. Levei muitos anos (à dimensão do meu desejo) até conseguir ter algumas coisas. Quando as tive, a espera como que desapareceu. Na minha mente, os dias de busca e desejo ardente esmoreceram, e todo o meu sentir se dedicou ao que efectivamente estava, já, a acontecer. Portugal aguarda D. Sebastião há séculos. Estou certo de que num qualquer dia de nevoeiro, se ele surgir, a nação esquecerá os séculos de espera, e rejubilará. E é assim que, entre um e outro corredor de supermercado, compreendo que numa vida razoavelmente longa, atirando para trás das costas todos os medos, de coisas que não controlamos e por isso não devem petrificar-nos, desde que em algum momento consigamos aquilo a que nos propomos, não é mais tempo, menos tempo, que verdadeiramente nos rouba o sabor que buscamos.

Posted in Crónicas curvas

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