Há pessoas que são naturalmente frias. Sei, porque conheço algumas. Não se deixam cativar pelo contacto físico. Vivem o amor e a relação de intimidade com um distanciamento que a mim fere, mas que para elas funciona. Não são de abraços, não são de muita coisa. Aos meus olhos, que são apenas os meus e por isso não têm o direito de julgar, parecem relações vazias, sem brilho. Mas se funciona para elas, tanto melhor. A cada um aquilo que lhe serve. Somos todos diferentes, embora algumas pessoas sejam muito, muito parecidas.

Eu sou do clube do mimo. E se hoje penso no mimo, é porque a dado instante dei por mim a pensar no que acontece quando uma pessoa do mimo convive com outra que não o é. Quando gostamos da proximidade, do romantismo no toque, no envolvimento dos corpos, precisamos ter junto a nós quem viva de acordo com a mesma métrica. Quem é muito físico no trato, quem respira com as mãos que se tocam, que deslizam nos corpos, vai morrendo aos poucos se do outro lado dos dedos estiver alguém frio, diferente, fechado, sem a mesma capacidade de demonstrar o calor que precisamos sentir quando somos assim, gente dos miminhos, gente doce. A doçura que não se alimenta tende a amargar. E as pessoas tendem a fechar-se. A arrefecer os corações e as mãos. A criar cascas muito duras que exigem muito trabalho para desmontar, para olhar para dentro e ver que afinal há ali alguém muito doce, escondido numa carapaça de defesa, como que para achar que o mimo não faz falta.

É assim que, por vezes, as pessoas se tornam difíceis de entender. Parecem uma coisa sendo outra. Afinal são apenas uma. Não são duas. Não são malucas, não são inconstantes. São gente plástica, que encontrou maneira de se defender, de não ficar mais triste. Gente que guardou o mimo num frasquinho seguro algures. Precioso. Frágil. Para tratar com cuidado. E é preciso um olhar atento para perceber isso através das cascas duras.