As pessoas que se amam têm a capacidade de se magoar profundamente. É triste isso, mas não é difícil de se entender. Só nos magoamos com as pessoas que nos interessam. Um estranho não me magoará, porque eu não o valorizo, não o deixei entrar no meu espaço, e tudo quanto me diga será deflectido. Não fica cá dentro. Mas as pessoas que amamos deixam-nos mais vulneráveis. Somos sensíveis a quem amamos. Damos importância ao que nos dizem. Criamos expectativas. Queremos, de quem amamos, o amor de volta. E quando nos atiram facas, ficamos a sangrar muito. É triste isso, mas é fácil entender.

Quem na vida me amou já me magoou muito. Quem na vida eu amei, já magoei muito. Já se trocaram frases duras, que eu acredito que não eram honestas. As minhas eu sei que não eram. O amor não é tristeza nem amargura. O amor, quando cria tristeza ou amargura, é por isso, é porque sentimos mais as pedras no caminho, é porque nos abrimos para receber alguém e o peito fica à vista das balas.

Há pessoas que se amam muito. Há pessoas que sentem juntas aquilo que jamais sentiram com outras pessoas. E mesmo assim conseguem magoar-se. E não creio que se amem menos por causa disso. Não creio que sejam menos, juntas, por causa disso. Quanto mais se ama, maior a frustração do que não se tenha. Dos insucessos, das hesitações. E essa frustração gera frases horríveis. Ideias terríveis. Coisas que ferem muito.

Mas só o amor vale a pena. O ódio é feio. Destrutivo. Transforma as pessoas doces em gente amarga. É um desperdício de tempo. Eu prefiro amar. Calado. Invisível. Sangrando devagarinho até as frases horríveis perderem a força, e oferecendo um abraço que está sempre, sempre pronto, receber o amor nos braços e dizer que não mudou nada, tenha sido dito o que tiver. Haja o que houver.