Senti necessidade de correr. Tímido. Pouco. Porque não sou corredor. Mas senti necessidade de correr. De dar às pernas. De acelerar a sucessão dos passos, galgar algum terreno. Sentir a raiva dispersar-se no impacto dos pés no chão, na dôr dos músculos, dos pulmões já sem ar. A minha aldeia não existe. Eu tenho uma cidade. A minha cidade também tem um rio. Também é largo onde se confunde com o mar. A minha cidade tem um monte, com nome santo, tem ruas estreitas e outras largas, com paralelos de granito. Tem casas rústicas, perfume dos pinheiros, vento de Norte e noivas de preto, de ouro carregadas.

Quando me larguei a correr, pensei em muitas coisas. E também pensei naquele rio, e no rio da minha cidade. Não sei exactamente porquê. Nos intervalos da respiração lembrei-me dela. E das terras onde me defino, onde queria ir, as paisagens que queria dar a conhecer. Quando me larguei esta manhã em passos solitários, falei comigo mesmo. Em voz alta. Fiz perguntas e ensaiei respostas. Ninguém me ouviu, fui eu e mais eu, sem botões sequer.

Daquele rio que me ouvia, transportei-me para o outro. Olharmos para onde viemos ajuda-nos a perceber porque viemos e a projectarmo-nos para outra maré. Somos marinheiros, somos barcos, somos peixes. Somos gente. Somos rios e cidades. Somos aldeias. Somos passadiços e bancos corridos. Somos o miradouro no topo do monte, o Zimbório de onde todo o vale se vê, os cavalos selvagens no planalto de granito, a estrada que sobe às nuvens. Somos tudo.

E o tanto que eu pedalei, há tantos anos, serra acima. Fazia dezenas de quilómetros, pedalando, nas estradas serpenteantes que me levavam mais alto, mais acima, mais longe de casa. E hoje estou ao pé de um rio, lembrando-me de outro, e das caminhadas entre silvas e pomares, dos passos sobre seixos rolados no leito dos riachos, e soltando fúria numa corrida esforçada, querendo voltar a uma parte daquilo que fui. Veloz.