Numa fila onde me detenho, observo um casal que alguns metros à frente se abraça e beija. Vejo-me tomado por um sorriso, e sem saber exactamente porquê, bebo dessa cena e deixo-me enlevar pelos sorrisos deles, pelo beijo que partilham, pelos corpos que se aquecem. Ou, noutro momento, vejo uma mulher bonita, com umas coxas de que gosto e que me despertam memórias, e novamente sorrio. Porque não sorrir, afinal. O sorriso começa fraco, mas eis que noto que se expande, que a boca se alonga, que os dentes espreitam, e a dado instante estou quase mergulhado nas minhas ideias, nas coisas que pulam em mim, as sinapses rebeldes.

Observo um copo de Gin, vejo os barcos ondulantes, o sol nas águas azuis, eu na sombra e o gelo que derrete devagar, as gotas que escorrem no copo, e penso no outro lado da esquina, nas pernas das mesas, deixo-me embalar pelos ruídos das gentes que falam longe, da brisa que me beija os ouvidos, e sossego. Percebo que não há tempo, que o relógio é só adorno, mecânica vazia, que importa sempre chegar, nem que seja em último. Mas chegar, chegar lá, cruzar mesmo a linha, saber que se conseguiu.

Das dificuldades vamos encontrando maneiras de respirar. As portas que se fecham, ou que ficam entreabertas, dão lugar a janelas, a olhares comprometidos que se lançam a coberto de finas cortinas. O sol abafado do Verão dará lugar aos dias curtos, aos amores de Inverno, aqueles que começando no frio prometem durar, porque não foram facilidades de corpos desnudos e quentes em olhares libidinosos de Verão. Os amores de Inverno são mais fortes, porque cortaram o frio, porque brilharam nas tardes cedo escuras e não derreteram nas chuvas das madrugadas levadas solitárias nas estradas de regresso, galgando quilómetros vazios.

E, furando o nosso enlevo, o mundo diz-nos que pensemos bem em tudo, que ponderemos tudo muito bem. O mundo faz isso em relação a tudo. Às coisas grandes e às pequenas. E quanto mais se pensa mais o parafuso se enrosca em direcção ao núcleo do planeta, mais fundo vão as âncoras. As nossas cabeças são computadores paradoxais. Complexos, mas limitados. Damos nós facilmente. Quanto mais processamos, menos vemos. Quanto mais procuramos explicar, mais camadas fósseis encontramos. Tentar ver para lá do vidro fumado é incrivelmente difícil, e as cartas do jogo nunca param de cair sobre a mesa, e os dados nunca deixam de lançar-se, e sempre que um degrau se sobe, outro surge. Estar vivo é muito bom, sentir coisas e saber que são verdade é muito bom, mas bom não equivale a fácil. E parte daquilo para o que cá andamos é conseguir responder “para quê?”. “Porquê?”. No dia em que conseguirmos responder a isso, saberemos se foi justo ou desperdício. Mas, mais que tudo isso, saberemos abrir as portas, as janelas, expulsar os fumos, e viver o enlevo, como tudo, como sempre.