Deliciosos impropérios

Para que conste, e como ponto prévio, não sou especial adepto de impropérios, o que em si mesmo pode estranhar-se dado ser minhoto. Para os minhotos, como julgo que se sabe, os impropérios não são verdadeiramente impropérios. Os minhotos mais genuínos não se cumprimentam “Meu caro amigo, como tens passado?”. Não. Os minhotos mais genuínos cruzam-se algures e exclamam “Onde tens andado Caralho?”. Efectivamente, para um minhoto, um caralho, mais do que uma referência fálica, é uma palavra polivalente que se reveste, até, de uma certa ternura. That said, persiste o facto de eu não ser especial adepto, embora tenha começado a aplicar impropérios ao meu discurso corrente a partir de certo ponto da minha vida profissional, quando me apercebi que uma boa caralhada (e um foda-se) era excelente paliativo, em muitos momentos superior às benzodiazepinas.

Serviu o introito para vos trazer aos caralhos e às conas. E a tudo à sua volta. Depois de (mais) uma caminhada longa, esta manhã, dei por mim a pensar em fodas, daquelas fodas que valem a pena (fazer amor também se enquadra aqui), e em como há coisas que têm um especial lugar nessas fodas. Como o uso desbragado de palavras que em condições normais são impropérios que não qualificam grandemente a pessoa que os profere, mas que no recôndito de uma foda são pérolas de poesia. Faz algum sentido, numa foda bem fodida, falar-se em pénis, vaginas, vulvas? Não. Dizer a uma mulher fantástica que nos salta em cima que se venha no nosso pénis chega a parecer ridículo, mas dizer-lhe “vem-te no meu caralho” tem todo um outro sabor. É libertador, muito mais excitante, amplificador da sensação do momento, da partilha. É como a cona. De todo o impropério luso, a cona é palavra que menos me cativa. No entanto, uma mulher que me diga “lambe-me a vulva” – e aqui abra-se um parentesis, pois se o caralho está muito mais contido ao pénis, a cona é mais abrangente, no tanto em que junta a vulva e a vagina – não me convencerá especialmente. Mas se me disser “lambe-me a cona”, como homem de bom trato e boas maneiras, se a cona em questão é digna de reverência, não tenho senão que cumprir a missão com enlevo. Não me passa pela cabeça dizer ao ouvido de alguém “adoro a tua vagina”. Não cai bem. É como água gelada. Mas dizer ao ouvido que adoro a tua cona enquanto o caralho vai e vem, bem, não tem preço. Estou certo de que existe uma explicação para isto. Possivelmente já motivou extensas dissertações de muita gente antes de mim. A mim pouco importa. A razão é secundária. Fica a magia da coisa, o sabor das palavras quando elas sabem bem, e a certeza de que para cada caralho existe uma cona perfeita, e de que para cada cona existe um caralho sem igual. Conas e caralhos que falam a mesma língua, como nunca o fariam se fossem apenas pénis e vaginas.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Não podia concordar mais! As palavras adequadas nocontexto certo adquirem uma outra dinâmica :)) Gosto muito do que aqui escreves, já faz algum tempo que leio.

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