O edifício, vetusto, tem dois pisos e uma água furtada. Pedra e branco. Há uma capela com um adro, e contornando a capela, há uma reentrância que dá acesso à entrada do edifício principal, com salas espaçosas e, no piso térreo, um grande salão. Mas para ali entrar há, entre o estacionamento e a entrada, um piso em paralelo, onde os saltos das senhoras se prendem. Está escuro e, sobretudo, frio. Há uma neblina que com os minutos que passam penetra em nós e nos deixa a tremer, com vontade de ir para dentro.

No grande salão existiam mesas e muita gente animada. E, como em todas as situações sociais, imensa conversa de circunstância, tão politicamente correcta quanto possível, e também muita gente com um enfado de morte, tendo tirado do bolso toda uma colecção de sorrisos amarelos e anuências vagas, a bem da conversa, só para o tempo correr mais depressa em direcção à hora em que se transformam em abóboras. E há, claro, gente divertida, a rir como se não houvesse amanhã, a cortar nas casacas de quem as tem e sobretudo de quem não as tem de tão cortadas e já gastas.

As cadeiras têm uma pintura brilhante, dourada, que não se afasta muito das toalhas creme que cobrindo as mesas se estendem quase até ao chão, cúmplices dos apaixonados que comunicam pelas pernas aquilo que as mãos não querem mostrar, ou das crianças que sob elas se escondem, fugindo do mundo dos adultos que nada lhes interessa.

Em frente a uma mesa rectangular, suporte de iguarias variadas, ele segura um pequeno prato na mão direita enquanto, com a esquerda, movimenta um garfo hesitante entre dois acepipes que lhe prendem a atenção. Toda a sua atenção se concentra nessa mesa. Está totalmente alheado do bulício nas suas costas, não tem pernas apaixonadas que se toquem nas dele sob a mesa, não é ele mesmo criança, nem está a cortar na casaca de ninguém. Está apenas firme, de prato e garfo nas mãos. Dentro de um fato, engravatado. Hirto.

– O senhor doutor não quer antes um prato de figos?

O olhar, que pendia sobre a mesa, levantou-se. Fracção de segundos que pareceu durar alguns minutos. Fixou-se primeiro na parede em frente, com alvenaria, enquanto processava, com surpresa, a pergunta que havia ouvido. Depois, reconheceu a voz. Sorriu, com um ar assumidamente matreiro, pousou o prato na mesa e sobre ele o garfo. Virou-se.

– A doutora sabe muito bem que eu não aprecio figos.
– E que mais sabes?
– Sei que passou muito tempo. Quanto mesmo? Lembras-te?
– Tens algum aquário? – e sorriu.
– Ah, pois é… já sei. A memória. Mas lembro-me eu. Também estava frio e escuro como hoje.
– A sério?
– Sério. Mas tu até tinhas calor, que o casaco estava aberto quando te vi.
– Urso. O casaco estava aberto porque… porque queria aquecer, ora!
– Sei. Mas aqui está quentinho e…
– … e tu estás de fato novamente. Agora andas sempre assim, ouvi dizer.
– Sim, é diferente – e mexendo na gravata – e sempre penso…
– … pensas?
– Penso.
– Então já tens o tico e o teco a falar a mesma língua?
– Tenho tido – sorrisos.

Ele atrevia-se julgar ter mais do que apenas dois neurónios. Mas por dois deles existia especial carinho. O tico e o teco, muitas vezes em contradição ou curto-circuito. Com tantos milhares de milhões de pessoas no mundo, seria presunção achar-se a única capaz de o fazer, mas era certo que aquela mulher tinha uma capacidade singular de quebrar as sinapses entre o tico e o teco dele. Mas o tico e o teco estavam guardados dentro de umas caixas, não tinham feito falta desde há algum tempo, e era preciso ouvir uma súbita pergunta sobre um prato de figos para, sem sequer se dar conta, os deixar sair das caixas. E, claro, ficarem logo descoordenados.

– Mudei de vida pá. Deixei aquele espaço infecto onde me viste, peguei em novos desafios, e arrumei as pontas que andavam soltas.
– Good… good for you…
– Hmm, e não só. Mas foi bom, sim.
– Olha, e já acabaste não já?
– Já. Nem sequer tinha muito apetite.
– Anda cá então.

E ele foi, subindo as escadas. Primeira curva à direita, depois à esquerda pelo corredor e finalmente a porta da rua e o paralelo. E o frio. A caminho, enquanto passava pelos degraus, pensava no tempo que havia passado desde a última vez, e de como, tendo estado tão em baixo, se havia erguido. O problema nunca tinha sido cair. Cair faz parte do processo. Importante era levantar-se, e a forma como se levantava. Isso diria muito sobre ele. Mas estava agora novamente em pé, num ciclo diferente da vida. Focado. Determinado. Conhecedor do seu melhor caminho e com os brancos mais brancos, e os pretos mais carregados.

Ao chegar à porta, a mão dela estava subitamente na dele. A electricidade fluiu como sempre, como se nenhum tempo tivesse passado desde a primeira vez em que as mãos se haviam tocado. E perguntou-lhe:

– Sentiste a minha falta?
– Muito. E tu?
– Claro que sim. Onde tens o carro?
– Está aqui no parque.
– Queres?
– Não quero eu outra coisa.
– Estás a fazer aquela cara…
– Aquela cara? Qual?
– A que fizeste quando… tu sabes…
– As palavras, doutora… essas palavras…
– Não tenho muito jeito. Perco-me. Mas… – e aproximou-se, abraçando-o – … aperta-me – e ao ouvido – segura-me.

Naquele momento, com o frio a cair sobre eles, parecia novamente tudo perfeito, como magnetos separados de novo colados, sinal da falta e da força que os unia, rara sensação de pertença.

– Esperei tanto por isto.
– Não mais que eu.
– Tens pressa?
– Não. Tenho o resto da vida. Aguentas-te?
– Aguento.
– Queres-me?
– Quero-te!
– É agora?
– É!

As palavras a seguir já não eram narrativa. Eram corpos consumidos pela sede, a vontade esmagadora de viver as sensações que não precisavam de explicação nem de um desenho para se entender. A combinação inexplicável de almas tão parecidas que os corpos eram quase um contínuo. A roupa tirada, como trapos velhos a um canto, os lábios mordidos, arranhões de unhas cravadas na pele, tudo coisas que as palavras não conseguem descrever sem ficar a universos de distância da real sensação.

– Onde andaste este tempo todo?
– A preparar-me para ti.