Sinto a necessidade de sossegar quem se preocupe, dizendo desde já que não sou suicida. Prezo a vida. Estar vivo é engraçado, mesmo olhando aos dias em que estamos derramados sobre o chão como óleo usado. Faço este curto preâmbulo porque vou escrever breves linhas sobre aqueles que decidem estar a mais sobre a Terra, e vão-se embora. De tempos a tempos conhecemos ou ouvimos falar de gente assim. Gente que foi embora, para umas férias sem retorno, desistindo de respirar. Muitas vezes ficamos boquiabertos, e dizemos que não entendemos. Como pode isso ser? Como explicar tal coisa se afinal há família, a pessoa até tem uns filhos tão bonitos, crianças novas e cheias de garra, mulher ou marido apaixonados, uma profissão de sucesso, que coisa lhe deu para desistir de respirar? Não se percebe.

Não se percebe porque o que vai na cabeça da pessoa que parte é uma coisa lá dela, mesmo que partilhe com alguém o que está na origem da vontade de partir. A pessoa poderá ter partilhado com amigos próximos um problema qualquer que ninguém valorizou muito. Algo que pareceu mundano. Mas na cabeça de quem o vive, pode estar a criar-se um nó górdio, ainda que de górdio tenha apenas a distância à espada que o corta. Creio que é, em muito, o que passa na cabeça das pessoas que vão embora sem que consigamos perceber porque razão o fizeram. Vistas de fora, as suas vidas são boas, reputadas como normais, quando não mesmo invejáveis. Mas nos seus sentimentos e pensamentos, há caminhos de vida que conflituam e representam para os mesmos uma dificuldade para a qual não encontram solução, nem o pragmatismo imediato de fazer como Alexandre o Grande e em vez de tentar desatar o nó, apenas cortá-lo.