Do casamento fica a amizade. A paixão vai-se, e o amor também vai desaparecendo, ficando uma amizade que mantém as pessoas unidas ao longo de uma vida. Quantos de vós ouviram a frase que acabei de escrever? Eu ouvi. E conheço outras pessoas que ouviram o mesmo, normalmente dita pelos pais, sobrevivendo eles mesmos em casamentos de várias dezenas de anos. A mim foram os meus pais que mo disseram, que do casamento apenas sobra a amizade. Estou seguro que, antes deles, também os seus pais lhes disseram o mesmo. E sempre assim, recuando no tempo, esta ideia que, bem espremida, significa apenas isto “contenta-te. Vão desaparecer-te as borboletas mas aguenta-se, que é mesmo assim”.

Acho criminoso. Poderá ser bem intencionado. Não duvido disso. Mas é criminoso. É uma ideia tóxica, que mata, que reduz, que amarrota o prazer da vida, que desde muito cedo nas nossas existências nos faz pensar que é normal, expectável, porventura até desejável, que a vida se desenrole assim, com paixões, amores, e suaves amizades que no fim se sobrepõem às primeiras. Obviamente não discuto o valor da amizade. A amizade tem de existir. As pessoas não podem ser apenas fodilhonas umas perante as outras. Tem de existir carinho, tem de existir preocupação. Tem de existir a genuína vontade do “bem” do outro, tudo isso é verdade. É verdade, também, que numa vida longa o corpo dará lugar à mente, e esta lembrará com saudade as coisas que o corpo outrora permitia. Mas tudo isso tem um lugar e um tempo. E só precisa acontecer se a matéria se debilitar de uma forma desajustada ao desejo. De outro modo, vender aos filhos a ideia de que vão casar para viver com amigos, é, repito, tóxico.

Temos a obrigação de fazer diferente enquanto pais. Um dia, mais tarde, quando tiver de falar sobre casamento à minha descendência, tentarei explicar que um casamento exige investimento, exige trabalho. Que as borboletas, para se manterem, exigem investimento contínuo ao longo da vida, quando existe sintonia, quando existe encontro, entre as pessoas. E que, se essa sintonia não existir, nenhum investimento dará fruto. Mas nunca, jamais, em tempo algum, direi “olha, no fim, fica a amizade”. Não. Direi, da forma que melhor me aprouver, que cultivem a tesão, que se fodam enquanto existir corpo, que se comam com os olhos, que se valorizem, e que embora devam ter carinho (aquele carinho que sustenta os velhos do nosso mundo, a quem idade deixou de sorrir), nunca devem perder a malícia do olhar e dos trocadilhos com as palavras. Mesmo quando os gestos já não forem iguais.