Se tentares levar a vida à tua frente, toda de uma vez, a vida passar-te-á a ferro. Temos, muitos de nós, situações pessoais que sentimos precisar alterar, e a velocidade a que queremos viver, numa gratificação cada vez mais instantânea, leva-nos a querer mudar o mundo. Queremos mudar as ditaduras e as democracias, queremos mudar os sistemas produtivos, queremos mudar as hierarquias, a fome no mundo, a violência, as profissões e vocações, os amores e as camas. Queremos mudar tudo. E queremos tudo depressa, tanto quanto algumas coisas nos provocam ânsias que julgamos impossível gerir sem rebentar.

Somos limitados na nossa capacidade de mudar o mundo. Conseguimos dar-lhe uns empurrões, de lado, para o desviar do curso, mas não conseguimos mudá-lo se o enfrentarmos de frente, como se fosse uma locomotiva sem freio. Temos de fazer as mudanças nos nossos mundos uma coisa de cada vez. Não temos energia para o fazer de outro modo. Seremos passados a ferro. Resolvendo uma coisa a seu tempo, avançaremos para a seguinte. Querendo resolver todas ao mesmo tempo, não resolveremos nenhuma, ficaremos com o dobro dos mundos para endireitar. E com muito mais ânsias. E com muito mais frustrações. E com uma sensação de brutal incapacidade que nos levará a uma espiral da qual não se sai bem.

“Oiça, trate uma coisa de cada vez. Você não consegue resolver tudo ao mesmo tempo”. Disseram-mo. E creio que bem.