Não escrevo para homens

Não escrevo para homens. Não significa isso que não existam homens que consigam ler-me. Mas não escrevo sobre automóveis, nem sobre tecnologia, muito menos sobre desporto, e embora escreva sobre sexo e sobre mulheres, não o faço da forma que, na minha perspectiva possivelmente enviesada, agradaria à maioria dos machos latinos. As mulheres e o sexo de que escrevo, não são objectos, nem exercícios de despejo de tomates. São almas de paixão e amor, de tacto, explosão de sentidos, carinhos e momentos sem preço. Há mais homens que acreditam nisto. Mas temo que sejam poucos. Porque isto não é matéria do querer. É matéria do criar e saber. Em adulto se não se é assim, já não se ganha. Não sei se é genético, se é coisa que existe no espaço entre as moléculas, mas é coisa que precisa aprender-se quando se é muito novo, creio. Tive sorte. Ou talvez seja apenas o tal espaço entre as moléculas, que no meu caso é diferente. Pode ser isso.

Escrevo para mulheres. Assumo. E escrevo para ser lido. Se assim não fosse, escrevia em papel, como tantas vezes fiz no passado distante, e guardava numa gaveta, numa sombra, num silêncio qualquer. Se escrevesse apenas para mim, isto seria pouco mais do que masturbação intelectual. Obviamente escrevo para ser lido. Para partilhar. Para dar a saber o que gira na minha cabeça, que impulsos são esses que estimulam os meus neurónios, que químicos me movimentam.

Pensei nisto quando, na fila para almoçar, pousei o olhar em revistas sensacionalistas que parecem prender mais a atenção das mulheres do que dos homens. De sensacionalista, tenho aqui pouco. Mas a atenção que mais prendo é a das mulheres. Não escrevo para lhes agradar. Mas é assim que me sai. E sei muito bem porque sai assim. E não poderia ser de outro modo. Não sei fazer diferente. Perante a escolha, pudesse eu alterar algo, nada mudaria. E muito prefiro eu ser como sou, sentindo e escrevendo assim, do que ser mais apto noutros domínios da masculinidade que pouco me cativam. E que às mulheres, temo bem, também já menos cativam.

Posted in Crónicas curvas

5 thoughts on “Não escrevo para homens

    1. Tens razão David. Se outro tivesse escrito isso, estaria a excluir-me de algo que aprecio e me sinto capaz de fazer.

  1. Escreves sobre amor, paixão, mulheres, sexo… são temas bons para qualquer género. Como homem, só tens a ganhar, mostras a tua sensibilidade, a tua forma única de estar na vida. A tua. E bem masculina por sinal.

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