Ao fim de vários dias intensos, que tínhamos tirado só para nós, para ficarmos juntos, nem sempre em casa mas fundamentalmente colados, chegaste-te ao pé de mim e disseste-me que estavas cansada. Eu também. Olhaste-me e com a mão no meu ombro disseste “amor, hoje vamos dormir? Só dormir? Pode ser?”, e eu, optimista mas pouco confiante, disse-te que sim, que era preciso, que estávamos os dois demasiado cansados de tantos dias seguidos de suor por todo o lado, no chão, em quase todas as paredes, nos sofás e cadeiras, banheiras e lavatórios, elevadores e recantos de escada, espaços públicos, tudo.

Deitámo-nos bem intencionados, a distância segura, preparados no corpo para descansar, dar sossego aos músculos, e a olhar os olhos um do outro com outro brilho, e onde o corpo estava já sofrido, os olhos estavam frescos. E então disseste-me baixinho “anda cá amor, não te queres aconchegar um bocadinho dentro de mim antes de dormirmos?” – e eu fui, e enquanto me aconchegava dentro de ti dizia-te ao ouvido “não temos juízo nenhum”.