Nascido e criado católico – e, com mais ou menos buracos na estrada, ainda católico na matriz -, cresci a acreditar que existem desígnios, que havendo uma força superior que nos protege, algumas coisas acontecem porque precisam acontecer. Mas Deus não é intervencionista, diz-se. O princípio do livre arbítrio que nos permite fazer o que queremos – incluindo negar a existência de Deus -, desafia, parece-me, a noção de desígnio. Admitindo que Deus existe, algo que eu admito, em que creio, e que não intervém no nosso percurso, os desígnios não existem. Temos uma vida de coincidências, ou apenas uma vida ditada pelas nossas opções, o que pode acontecer nas mais pequenas coisas. Estar aqui sentado a escrever levar-me-á num sentido, mas se eu não o estivesse a fazer, algo diferente me aconteceria. E assim, o facto de aqui estar a escrever pode, sem eu saber, estar a condicionar muito significativamente o meu futuro.

Estou numa fase da vida em que não sei se acredito em desígnios. Olhando à minha volta é tentador achar que sim. Que existem. Que se algo acontece, ou não acontece, é porque tem de existir uma razão desconhecida, que tarda em revelar-se, que mo mostre. E ando inclinado a achar que isso é uma treta. Que não existem desígnios nenhuns. Há combinações de oportunidades e opções. Ora se pagam erros, ora se vive a doçura de uma boa opção. Talvez isto sejam sinais de desencanto, talvez seja um homem desiludido ou desinteressado da metafísica, dos dogmas e valores rígidos. Não sei exactamente o que será. Mas a ideia do desígnio, para além de uma enorme conveniência de discurso, já pouco me apela. E, se não há desígnios, não há nada do que não se possa fugir, evitar ou corrigir. Se não existirem desígnios, podemos sempre chegar onde queremos ou onde precisamos, variando apenas a distância, o tempo e a dificuldade.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. o destino somos nós que o fazemos, é o que se diz? as nossas opções a cada instante permitem milhares de caminhos diferentes. por isso não acredito num futuro pré-determinado, em desígnios de deus se o quiseres.

    R.

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