É fácil pensar-se que é tudo sexo. Que é só sexo. Quem me leia poderá ficar com essa ideia. Ou eu de outras pessoas, que também tenho lido muito boa coisa, e muita dela com muito sexo lá dentro. Sei que isso acontece porque o sexo é uma parte integrante da vida (mais da dos outros, vá) com a qual é fácil identificar-mo-nos. Eu poderei escrever sobre um almoço de amigos em que preparas uma tosta para mim, ou de um beijo dado antes de uma fotografia, de calçada portuguesa e lojas de bairro. Posso escrever sobre tudo isso, e isso terá, para mim, um significado muito, muito superior a qualquer sexo que o mundo me ofereça. Mas é muito meu. Não explode num texto. Não ajuda a entender.

Mas o sexo? Se escrever sobre sexo tudo fica mais claro. É uma maneira fácil de assinalar a falta, o encaixe, a sintonia. Que por si, em si mesma, vale pouco sem o resto, sem a tosta, o beijo, a calçada ou as lojas. Vale pouco. Mas mostra bem como é este querer, e como é fácil, tão fácil, sentir, encaixar, habitar a mesma crista e a mesma cava, o mesmo comprimento de onda. No meu bolo falta uma fatia. E não tenho sequer as migalhas.