Acredita que estava mergulhado no meu mais profundo alheamento. Longe de mim, longe de toda a gente, e de ti então, metido num paradoxo. Ao mesmo tempo que distante, por te imaginar a tantos anos-luz de mim, pertinho, porque te trago no pensamento várias vezes por cada tictac. A sombra na porta, a princípio, não me motivou atenção. Era uma sombra apenas. Esta porta tem muitas. E esforço-me muito para as ignorar. Mas esta sombra persistia, e acabou por me puxar, de forma determinada, do buraco negro onde estava escondido. Percebi que existia um par de bonitas pernas nessa sombra, e que havia uma menina marota a olhar para mim, a fazer uma boquinha atrevida e a piscar-me os olhos. E o meu coração disparou.

Sorri e caminhei para ti. Silêncio, mas galopando por dentro. E cheguei-me muito perto. E depois disso mais perto ainda, e ainda antes de te abraçar, as nossas mãos estavam já a tocar-se, e os dedos entrelaçados, e depois beijei-te o pescoço, e ao teu ouvido levei os meus lábios para te dizer “que saudades, amor”. E tu, ao meu ouvido também, “anda amor, vem rir-te comigo”.

E eu fui.