Seremos nós (ou muitos de nós) educados para estar sempre em controlo? Terão gerações de pais preparado os filhos para ser control freaks, e, mais que isso, estaremos nós, enquanto pais, a trilhar os mesmos caminhos que farão os nossos filhos serem, também eles, control freaks? É possível que sim. Como outrora referi, noutras linhas, os pais presentes (não me debruço, pois, sobre os ausentes, o que nada tem a ver com a presença física contínua sob um mesmo tecto, note-se) não preparam os filhos para vidas errantes de incerteza total, seguindo o vento para onde ele for. Na verdade, os pais presentes procuram preparar os filhos para vidas controladas, onde o erro esteja minimizado e os dias conduzam a ícones de estabilidade, como a garantia de um título académico, a obtenção de uma fonte regular de subsistência e a constituição de uma família – se possível, tradicional – com o intuito de procriar e garantir a continuidade da espécie. Em traços gerais, é isto. Que pode reduzir-se ao famoso “ter filhos, plantar árvores, escrever livros”. A ideia, é a mesma. Tudo se liga.

Uma educação orientada para a minimização do erro e para a vergonha de perder a face, ou, dito antes assim, uma educação assente no medo de falhar, cria necessariamente gente que sente o mais absoluto pavor de perder o controlo. Só podemos não sentir medo – para lá das proporções salvíficas que o medo tenha – se considerarmos estar em absoluto controlo de todas as coisas na nossa vida. Apostamos, investimos o nosso tempo – e o nosso dinheiro – em projectos de vida que julgamos controlar, com vista a objectivos que definimos para nós ou – como sabeis que venho acusando – que alguém nos definiu, de forma mais ou menos assumida. Os control freaks são, provavelmente, gente que não concebe desviar-se de uma linha vital muito certa, muito bem traçada, condicionada pelo medo de uma ou mais coisas.

Esses medos não se percebem apenas nas linhas ascendentes, que nos levam à referencia dos antepassados. São medos transversais, que a todos condicionam na nossa relação com os nossos pares. Também aqueles que nos rodeiam esperam de nós comportamentos exemplares, rejeitando, normalmente, aceitar a falha, o insucesso. Quem o faça será um idiota, um pobre-coitado, um falhado. E no entanto a verdade, das mais puras, é que as pessoas erram. E erram muito. E falham imenso, em muitas coisas das suas vidas. E como estão formatadas para não errar nem falhar, como foram educadas entre balizas estreitas, nem sempre toleram bem, internamente, aquilo que entendem como fracassos. E daí surgem dissonâncias, surgem conflitos que a mente transporta para o corpo, e as pessoas sentem as suas auto-estimas arrastar pelo chão, ou desenvolvem, até, coisas mais desagradáveis como ataques de pânico, que nada mais são do que o corpo a manifestar aquilo que o inconsciente já sabe, mas o consciente não quer assumir.

A necessidade de controlo, de caminhos e acções bem medidas, é, por vezes, o que nos precipita. O que nos leva a assumir coisas demasiado sérias demasiado cedo, a acorrentar os tornozelos quando eles se querem – ou queriam – ainda livres.