Havia um socalco relvado e um murete branco, e uma paisagem desimpedida sobre uma parte da cidade ribeirinha, com o Sol de uma tarde ainda de Inverno a fazer brilhar a ondulação das águas doces a misturar-se com as salgadas. Tu estavas sentada em frente, e eu de lado, virado para ti.
– Quero tanto ficar contigo. Deixas?
– Deixo. Claro que deixo, também quero muito – retorqui, enquanto me aproximava do teu ombro, pousando nele a cabeça e segurando as tuas mãos. E prossegui – respeitar-me-ias se fizesse algo diferente?
– Como? Diferente como?
– Respeitar-me-ias, como homem, se fizesse algo diferente do que vou fazer?
Veio o silencio, alguns segundos apenas, e logo depois:
– Mas vens buscar-me? Espero por ti?
– Espera.
– E vens mesmo buscar-me?
– Vais querer? Vais querer que te procure? Como saberei se ainda me queres?
– Se me prometeres que me vens buscar, eu faço-te saber.
– Sim amor. Vou buscar-te – e depois, falando-lhe ao ouvido, enquanto a apertava nos meus braços, disse – estejas onde estiveres, sabes que te quero, e eu sei que me queres – e em voz alta, completei – e quando te for buscar, vou agarrar-te tanto, tanto. E vou perder as minhas mãos no teu cabelo, e vou cheirar-te como um perfume raro, e vou olhar tanto, mas tanto esses teus olhos… – e então as lágrimas pesadas e grossas escorriam do teu rosto, e eu inquietei-me, sofri calado, e tu de novo – quero tanto ficar contigo, e isto é tão pouco – e olhavas para outro lado, não me encaravas, e eu apertei-te de novo contra mim e disse-te:
– Não te percas, não me percas. Não me esqueças, amor. Eu vou-te buscar.