As pessoas sofrem muito. Sofrem com as coisas delas, sofrem com aquilo que provocam a si mesmas, sofrem com aquilo que lhes foi feito por outros, sofrem com o que controlam, julgam controlar, ou não controlam de todo. O mundo parece feito de sofrimento e violência. Dizem que é, por aqui, um problema da herança e tradição judaico-cristã. Que somos formatados, mais ou menos silenciosamente, para sofrer. Se Cristo morreu na cruz, se nos mostrou que o caminho é o do sofrimento, também nós devemos sofrer no caminho da salvação. A violência está bem expressa na história das civilizações e das religiões, e os episódios de esperança e bondade são obliterados pelas perseguições e derramamentos de sangue que a história e os livros sagrados transportam de geração em geração. Mas não compro em nada essa ideia. Nas outras culturas, que não as judaico-cristãs, também existe sofrimento e violência.

Talvez disfarcemos nessa tradição o simples facto de o Homem ser naturalmente violento e mau. E talvez por isso andemos todos à procura da felicidade que nos ilude, porque a felicidade, a bondade, sai em esforço. É preciso trabalhar para a encontrar. A violência e o sofrimento surgem naturais, jorram das palavras e acções. E é triste isto, que possamos ser intrinsecamente maus. E daí resultam as insatisfações, a busca perene por algo mais, a ideia que todos parecemos ter de que nos falta algo na vida, nos mais variados domínios, porque aquilo que sai mais naturalmente de nós é negativo, por muito que nos custe admiti-lo. É fácil magoar. Magoar profundamente. É fácil fazer sofrer. Muito. Mesmo que não se queira, mesmo que seja inconsciente. Mas é fácil. Demasiado fácil, para gente que, afinal, continua a procurar a felicidade como pão para a boca.

Ser triste é fácil. Sofrer é fácil. Tem um preço, custa muito, mas é fácil. As razões para ser triste e sofrer estão em todo o lado. Na ponta de um telefonema, nas letras de uma mensagem, nem sequer é preciso esperar pelas armas, pelos exércitos, pelos punhos fechados. Basta que se fechem os olhos, as bocas, os corações. As pessoas sofrem muito. Porque é fácil, e porque somos, talvez, intrinsecamente maus. Mesmo quando não queremos.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

  1. Ao longo da vida tenho-me apercebido que o ser humano consegue ser de uma crueldade atroz e até retirar algum prazer da desgraça e sofrimento dos outros. Alguém que me explique porque quando está um ser humano estendido no chão a contorcer-se com dores, cheio de sangue, vitima de um acidente de carro, se juntam quinhentos mirones a ver o espectáculo e mandarem bitaites? Ou adoramos um bom drama, cheio de choradinho, baba e ranho? A tristeza e o sofrimento dos outros incomoda-me…quando nada posso fazer prefiro respeitar a dor de cada um e afastar-me por respeito.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *