Há algum tempo atrás convidaram-me para ir até um estúdio de televisão. O tema seria, segundo me recordo, blogs escritos por homens, cujos homens escrevessem sobre mulheres. Insistiram comigo para que fosse. Com muita pena minha, recusei. Recusei porque face à profissão que tinha naquela altura me parecia má ideia dar a cara na televisão. Já a tinha de dar por outros motivos, não sendo figura pública, mas num Portugal pequenino a minha participação num programa de televisão, dando a cara por um blog onde se conjuga o verbo foder sem especial pudor, podia criar-me dificuldades. E os tempos nunca estiveram para dificuldades. A crise, calha bem, já se vivia. E eu ainda tinha a ilusão de que o meu trabalho se mantivesse ali, inalterado, por mais alguns anos valentes.

Explicaram-me que a insistência para participar nesse programa – que não sei se alguma vez se chegou a realizar – era o facto de eu escrever sobre mulheres como poucos. Confiem em mim quando vos digo que o meu ego não rebentou com isso. Na verdade, e lembro-me bem, fui antes invadido pela surpresa e por alguma insatisfação. Que homens são, afinal, aqueles que as nossas mulheres têm à mão? O macho latino clássico, o macho ortogonal, do músculo inversamente proporcional ao intelecto e ao sentimento? O macho dos tufos peitorais, mindinhos de longas unhas e galanteio já gasto? É triste, isso. Não é o homem que vos desejo, mulheres. Creio que vos interessa muito mais o homem que vos ouve, que vos recebe nos braços com benignidade, que vos chama o nome com doçura ainda que, em momentos de outra brutalidade, vos encoste contra a parede e vos foda como se disso dependessem as fundações da civilização – bom, e de certo modo, dependem.

Lamento ter recusado. Teria gostado de dizer duas ou três coisas. Mas sempre as vou escrevendo, e não preciso revelar as minhas entradas ou careca, ou a cara, que é, afinal, a de um gajo triste, tantas vezes palhaço, supremo idiota entre os idiotas. Longe – talvez temporariamente, talvez para sempre – daquilo que gostaria que o mundo fosse. Mas sempre escrevendo, sempre.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

4 Comments

  1. O homem que nos deseja é também aquele que desejamos para nós, mas infelizmente é o que mais escasseia. De quem é a culpa? Sem dúvida das mulheres, desde a mãe que os cria, mas não educa, até às mulheres que se contentam com tão pouco e lhes permitem o machismo e as faltas de respeito.

  2. Homens e Mulheres perfeitos não existem, mas ha Homens e homens e Mulheres e mulheres. mas creio que no meio da doçura todas queremos ser encostadas a parede 🙂

  3. Também seria incapaz pela minha profissão, não é normal nem desejável que alguém que cuida dos outros protege, trata, afirme publicamente que adora sexo, que já teve uma one night stand ou que já dormiu com um homem casado.. são coisas nossas, que devem ficar sob o anonimato. Um blog serve para lavar a alma, falar de tudo, dizer uns disparates, mas a partir do momento que assumes a tua identidade publicamente passas a ser criticado ou ficas limitado na escrita.

    Quero continuar assim, só assim para mim faz sentido.

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