Há algum tempo atrás convidaram-me para ir até um estúdio de televisão. O tema seria, segundo me recordo, blogs escritos por homens, cujos homens escrevessem sobre mulheres. Insistiram comigo para que fosse. Com muita pena minha, recusei. Recusei porque face à profissão que tinha naquela altura me parecia má ideia dar a cara na televisão. Já a tinha de dar por outros motivos, não sendo figura pública, mas num Portugal pequenino a minha participação num programa de televisão, dando a cara por um blog onde se conjuga o verbo foder sem especial pudor, podia criar-me dificuldades. E os tempos nunca estiveram para dificuldades. A crise, calha bem, já se vivia. E eu ainda tinha a ilusão de que o meu trabalho se mantivesse ali, inalterado, por mais alguns anos valentes.

Explicaram-me que a insistência para participar nesse programa – que não sei se alguma vez se chegou a realizar – era o facto de eu escrever sobre mulheres como poucos. Confiem em mim quando vos digo que o meu ego não rebentou com isso. Na verdade, e lembro-me bem, fui antes invadido pela surpresa e por alguma insatisfação. Que homens são, afinal, aqueles que as nossas mulheres têm à mão? O macho latino clássico, o macho ortogonal, do músculo inversamente proporcional ao intelecto e ao sentimento? O macho dos tufos peitorais, mindinhos de longas unhas e galanteio já gasto? É triste, isso. Não é o homem que vos desejo, mulheres. Creio que vos interessa muito mais o homem que vos ouve, que vos recebe nos braços com benignidade, que vos chama o nome com doçura ainda que, em momentos de outra brutalidade, vos encoste contra a parede e vos foda como se disso dependessem as fundações da civilização – bom, e de certo modo, dependem.

Lamento ter recusado. Teria gostado de dizer duas ou três coisas. Mas sempre as vou escrevendo, e não preciso revelar as minhas entradas ou careca, ou a cara, que é, afinal, a de um gajo triste, tantas vezes palhaço, supremo idiota entre os idiotas. Longe – talvez temporariamente, talvez para sempre – daquilo que gostaria que o mundo fosse. Mas sempre escrevendo, sempre.