Perguntem a quantas pessoas quiserem. A maioria, estou seguro disso, dir-vos-á que a vida consiste em assegurar alguma forma de subsistência, casar – ou algo equivalente – e procriar. Como se a vida se esgotasse em ser pai de família, não falando já dos clássicos escrever um livro e plantar árvores. O que eu procuro, e tu procuras, e todos procuram, não é, afinal, nada de extraordinário. Mas, não o sendo, pode contrariar em muito aquilo que foi desenhado para nós, por outras pessoas que não nós mesmos. A nossa educação, sempre bem intencionada e com o objectivo de nos poupar do mal – um mal indefinido, talvez uma forma de insucesso vital -, formata-nos inexoravelmente para vidas muito bem balizadas, que se situam algures entre as rotinas de um emprego e uma família, ou, se tivermos sorte – e o entendermos como tal -, duas famílias. A família do emprego, que convive connosco demasiadas horas por dia, e a família da casa onde dormimos. Pensando bem, não somos formatados, muito menos educados, para perseguir a nossa felicidade. Podemos encontrá-la, é certo, no branco e no preto da tradição, no emprego e na família, mas ela pode não estar aí. E, se não estiver, estamos coxos, despreparados. Ninguém nos ensinou para isso, ninguém disse como é, as ferramentas para lidar com isso têm de ser criadas na terra, tiradas do chão, porque se não as fazemos nós, não é por ensinamento que lá chegamos. Emprego, casamento, carro e casa, estúpido. É por aí que tens de seguir. Qualquer outra coisa será futilidade. É assim, pelo menos, na cartilha que vem dos pais, e antes deles dos avós, e antes deles de gerações e gerações de gente muito provavelmente infeliz. Infeliz, mas branca ou preta, certinha, ou putativamente certinha, empurrando para baixo dos tapetes, que nunca ousam levantar, os seus desvios e tentativas frustradas de respirar mais fundo, ou apenas respirar algo diferente, menos branco e menos preto, um ar mais cinzento, mais rico, de ondas e cheiros, qualquer coisa que não se encontra nas gavetas bem catalogadas das vidas com princípios, meios e fins, traçados a régua e esquadro. Como se fosse sequer possível, sobre a terra, traçar coisas totalmente rectilíneas!

Mas, no entretanto, se ousas espraiar-te, se sentes a dúvida por um qualquer cinzento, se a tua vida quebra a recta e diverge num traço de compasso, tens um saco de sofrimentos e dores para carregar, tens não uma mas múltiplas caixas de muitas Pandoras irritadas, acossadas, fodidas. Ninguém te avisou, ninguém te disse, tens de descobrir sozinho como se faz, como se transforma o cinzento em algo onde possas navegar melhor, com as ferramentas que te deram. E se isso não for possível, se te faltarem forças, se te deixarem sozinho, se te pendurares ou te pendurarem, o problema, meu filho, é teu, palerma, imbecil, inepto. E é então que te convidam ao conformismo. Tudo concorre para te convencer que não podes mudar, que não tens força para isso, que não esperam nada de ti, mas só tu sabes. Tudo concorre para te dizer que tens de aceitar as coisas como elas são, porque elas sempre são, e sempre serão. Mas só tu sabes. Se o conformismo é teu, se o conformismo é a tua vida. Se aceitas. Se queres. Se consegues. Sabes o que são os apertos no coração. Sabes. Sabes o que é sentir ansiedade, inquietude. Querer partir. Querer ficar. Procurar sempre mais, mais de tudo. Sentir que falta qualquer coisa. Sabes tudo isso. E, ainda assim, estás despreparado, despido no mundo sem sequer uma porra de uma parra que te alivie a nudez na alma. Sabes que o grito vem. Só não sabes quando.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

  1. Eu por mim falo, da vida procura a emoção que me faz sentir que vale a pena manter-me por cá!
    Um dia de cada vez e cada um único!

  2. “Sentir que falta qualquer coisa. Sabes tudo isso. E, ainda assim, estás despreparado, despido no mundo sem sequer uma porra de uma parra que te alivie a nudez na alma. Sabes que o grito vem. Só não sabes quando.” sou Eu!!!!

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *