Das grandes ascensões diz-se que são grandes as quedas. Deves preparar-te para o degredo. Deves saber que do pé no travão serás levado ao final da fila, serás o último dos últimos. Deves saber que não verás, não ouvirás, nada dirás. Levantar-se-ão todas as barreiras para onde quer que te vires, e darás por ti a pensar que maior é o espaço de todos os outros e muito, muito menor o teu. Mas não te deixarás invadir por nada mau. Não terás o teu coração negro, nem pensarás mal. Não quererás mal. Não te aborrecerás. Sabes que é assim, entendes tudo, ainda que te magoe, retire brilho aos dias, faça parecer que tudo está parado. Em ti e à tua volta.

Não te deixes desesperar. Não te percas. Não te deixes enterrar. Procura resistir aos cortes afiados, segura-te como podes, vai andando, vamos andando, devagarinho que seja, uns centímetros de cada vez, uns minutos após outros. É muito mau, é. É tudo isso e mais qualquer coisa. É uma mortificação, uma pena pesada, um endurecer da pele, o resultado inverso contido numa ausência que presente faria diferente. É queimadura pelo gelo, é profunda falta de vontade de seguir, é insatisfação perene. É preparação para o silêncio, para o esgotamento das palavras, lábios cerrados, fecho em dores mudas. Deves preparar-te para desaparecer. Com planos ou sem eles. Desaparecer, só.