Parecerá que fomos arrastados. Dirão que não há mais, que tudo se fechou, que não corre mais. Hão-de encolher os ombros e dizer que foi vento, que foi coisa de crianças, brinquedos e imperadores, risos de um Verão antecipado, inconsequências e inconsciências. Enquanto não houver amanhã será como se as linhas que divergem jamais se cruzassem como outrora. Será como se as esquinas já nada escondessem. Dirão da pele que está seca, da manteiga que está fria e dura, do calor que arrefeceu. Dirão muita coisa. Mas saberão muito pouco.

O que há para lá da esquina? Há alguma coisa? Há. Há sempre alguma coisa para lá da esquina. Do outro lado da esquina estou eu. Depois da curva, estou eu. Ao contornar a tormenta, estou eu. Enquanto não há amanhã, segura-te firme, segura-te forte. Um. Outro. Enquanto não houver amanhã haverá fuga. Haverá ausência. Ocultação. Gente escondida atrás dos quilómetros e do horizonte. Um. Outro. Enquanto não houver amanhã restará semente, memória, saudade. Como os corpos que aprendem a andar de bicicleta e nunca mais esquecem, gente que aprende a ler e nunca mais consegue impedir a formação de sílabas, gotas que escorrem e nunca mais conseguem travar-se.

Enquanto não houver amanhã, não te percas. Não me perca eu. Não se esqueçam os imperadores nem o largo, os paralelepípedos escuros das ruelas, e a falta de juízo que afinal era a matemática simples do dois mais dois. Enquanto não houver amanhã haverá silêncio, e travão às letras, às palavras, às frases e parágrafos, as linhas que parecem vazias de acção, que parecem conversa barata e cansativa. Enquanto não houver amanhã, é como se o mundo não nos tivesse sobre ele. Será saber que nunca fica tudo em palavras. Que nunca se consegue dizer tudo, escrever tudo, que há sempre um problema, uma limitação, uma possível interpretação, que nada substitui o abraço e o olhar, o toque, a presença. Mas amanhã, amanhã as palavras não farão falta.