Lembrei-me de ti como se precisasse de motivo para isso. Lembrei-me de ti como se precisasse pensar para beber água quando estou ressequido no deserto. Lembrei-me de ti como se não fosse isso uma constante, uma letra da equação que nunca muda, aquela coisa que agarra à vida e expande os sorrisos. Onde eu estou, tu estás. Pode ser um som. Um cheiro. Uma imagem de um sítio ou um nome. Onde eu estou, tu permaneces. No teu cabelo que continuo a afagar, quando em mim repousas a tua cabeça. É filme que roda em contínuo, algo que nunca deixei de fazer, quando durmo e muitas vezes até acordado.

Estas mãos, onde se marca o que se pensa, se dá traço ao que se sente, são força que te agarra. De manhã, à tarde, na noite. E se agora se erguem muralhas, são de outra pedra. As correntes, sabes, foram caindo. A princípio, eram pesadas e numerosas. Uma a uma foram tombando, fechos abrindo, ainda que teimosamente a querer fechar, a querer voltar. Mas o sofrimento na queda, o esforço no passo, foi muito para agora ser pouco. Rompeu-se o que era sagrado. Rasgaram-se escrituras. Voltaram-se páginas de livros que nunca voltarão a fechar-se como um livro nunca lido, que nunca devolverão ao papel o cheiro de uma página nunca virada. O que se avançou não se recua. Deixar a terra segura, deixar os pais, deixar aquilo em que se cresceu. Maturar. Ser maior. Fazer travessias, navegando atento a um farol que se conhece bem, que se vê mesmo apagado, a luz que até o tacto sente.

Dizem-me que vá. Que vá à luta. Não se sabe bem como, ou com que rapidez. Mas que vá. Que é de ir. Que não se desiste de algo assim, que o mar é revolto e muito salgado, que o desespero dê lugar à força para empurrar, e puxar, e sacudir, e andar, andar, andar. Que estime, dizem. Que é isto. Que é isso. À minha frente, cruzam os dedos das mãos, dizendo-me que é peça que encaixa, que é a moldura que enquadra a tela. Lembrei-me de ti. Sem necessidade.  Não se lembra quem não desaparece em nós. Nem precisam dizer-me que estime, navegue ou lute. Eu sei.

O negro e o pavor alastram, o buraco alarga-se e não existe mais onde segurar o corpo. Os dias são tempo que corre, apenas, na vida parada, no vento que não sopra, do Sol que não aquece. Do Inverno veio um frio de ausência. Dos dias pequenos, escuros nos fins destas tardes agora longas, vieram os murmúrios, as memórias da perfeição, a falta de ti, de nós, de tudo. Lembrei-me de ti quando pensei que não há nada acima do cume, que não há nada mais fresco nas dunas desertas, que sou eu sentado a olhar-te, a sofrer por ti se te magoas, na telepatia dos nomes que se cruzam. Lembrei-me de ti, como se precisasse de motivo para isso. Lembrei-me de ti quando morri. Como se precisasse de motivo para isso.