A experiência não é transmissível. Não serve aos outros, senão ao próprio. A experiência é pessoal e intransmissível, não é uma coisa que se ofereça ou desloque de uma pessoa para outra, como se a minha experiência fosse aplicável a outro, como se as coisas que eu vivi ou vivo sejam sinal inequívoco de que alguém as viverá, dadas as mesmas variáveis, da mesma forma. Não é de todo assim, porque tudo é diferente, porque todas as pessoas têm em si algo que as torna únicas, mesmo quando tudo parece igual ou muito parecido.

Não se pode saber sem viver. Não se pode assumir que o nosso caminho vai ser igual ao de mais alguém. Não se pode pensar que aquilo que os outros fazem é baliza para nós, ou que aquilo que eu vivo e a forma como eu vivo, ou aquilo que me condiciona, condicionará também os outros à minha volta. Sempre que nos sentimos no direito de dizer a alguém que não pode fazer algo, que não é capaz, que não é possível, que é ingerível, estamos a chamar a nós a responsabilidade de matar uma coisa que não nos pertence: um sonho que não é nosso, de uma vida que não é nossa. E que confortável que isso pode ser, disparar em todos os sentidos, pisando as ideias de outros com as nossas frustrações e dificuldades, e depois seguindo em frente, como se nada fosse.

Que nunca ninguém diga a outro que não é capaz. Que nunca diga o que pode ou não pode fazer, do que é ou não é capaz. Ninguém sabe o que vai dentro das paredes, ninguém sabe o que corre nas artérias, a que velocidade, com que fúria, com que dor. Ninguém sabe nada senão de si mesmo, e muito bom é quando se sabe de si mesmo, quanto mais pensar saber dos outros. Impor limites ao seu semelhante é estender-lhe dores e frustrações próprias, é projectar nos outros os nossos próprios receios, é achar que se eu não consigo, se eu tenho este problema, então também tu, por muito que queiras, os terás. Se eu não sou capaz, tu também não. Se a mim custa, a ti custará mil. Tristes profecias. Todas de desgraça.

A experiência não é transmissível. Sabe quem vive. Sabe de si. A experiência dos outros é outra vida. Não é a nossa.