O futuro, por definição, e como se sabe, não existe. Não existe não só porque sendo futuro nunca é presente, mas também por aplicação do Paradoxo de Zenão, segundo o qual, havendo sempre um ponto intermédio, nunca realmente se alcança um qualquer destino porque entre o ponto onde se está e aquele que se pretende alcançar, há sempre um ponto intermédio, maravilha de pensar ou estar num espaço supostamente infinito. E se o Paradoxo de Zenão se pode aplicar ao espaço, a mim apetece aplicá-lo ao tempo. Mas isto é, bem se vê, uma abstracção. O futuro, o tal que não existe, condiciona-nos. Bem mais do que devia. E chega. Transforma-se numa sucessão de presentes.

Não somos educados para viver de forma negligente e errante. Somos condicionados, desde cedo, para ter cuidado. Para dar passos calculados, com precaução, fazendo as coisas de um tal modo que a vida seja certinha, que estejamos balizados, que se evitem tombos, traumas, erros difíceis ou impossíveis de sanar. É uma preocupação legítima, a dos pais, de pelo exemplo e pela palavra criar os filhos para serem certos, até calculistas. Isso vem criar, em nós, a necessidade de controlo. Não ser errante implica ter controlo. Saber exactamente o que está a acontecer,  e sobretudo o que vai acontecer. Dominar o presente, e o futuro. Mas o controlo, descobrimos um dia, é como o futuro. Não existe. O controlo não passa da sua ilusão. Pensamos ter controlo, mas controlamos muito pouco, quase nada. O segredo é ser plástico. Adaptarmo-nos. Viver com aquilo que temos à mão, enquanto vamos caminhando em direcção àquilo que efectivamente queremos. A vida move-se por dois princípios, o amor e o medo. E não existem outros. O que mais se invente, deriva destes.

Perdemo-nos em demasiadas questões sobre o futuro que achamos que existe, procurando controlá-lo de uma forma que jamais conseguiremos. Perdemo-nos em questões como se vamos ter dinheiro, se vamos ter emprego, se vamos conseguir estar ou partir, se vamos ter a habilidade de manter as coisas como as conhecemos, se as borboletas sempre vão voar dentro das barrigas – e desconfio que nenhuma borboleta gostaria de voar nas entranhas -, se o passo é seguro, se a casa, o carro, as coisas que nos rodeiam, podem existir ou não. Conseguimos encontrar, sem esforço e nesta ânsia de controlo, um conjunto infindo de questões, materiais e até metafísicas, para justificar a nossa existência num mundo que não é plástico, mas sim rígido, onde tentamos manter-nos à margem dos problemas e conflitos. Em nome de um futuro qualquer que achamos que pode chegar de uma forma controlada por nós. E tudo isso é falso.

O que conta, é o aqui e agora. O futuro, evidentemente, espera-nos. Dizer que não existe é um facilitismo meu. É para vos impressionar. Defender uma ideia pelo absurdo. O futuro virá, sim. Mas não o controlamos. Apenas podemos dar toques ligeiros para desviar a trajectória, para que o futuro, quando se fizer presente, seja um que nos enquadre bem, que nos sirva como um fato na medida certa. O aqui e agora é aquilo com que acordamos todas as manhãs. O que temos à nossa volta? O que temos de fazer? Se não existe controlo, se o controlo é uma ilusão, uma técnica de auto-engano, então o que nos sobra é lidar com aquilo que se nos apresenta a cada momento. Aqui e agora. Ir resolvendo. Tratando. E dar os toques ligeiros, ir navegando. Sem navegar nunca se aporta. Nunca se chega. E se os saltos para o vazio, às cegas, são pouco sensatos, o excesso de raciocínio também o é. Congela e paralisa. O equilíbrio, que nisto como em todas as coisas parece ser o mais difícil de se conseguir, é o fito. Tenhamo-lo, sem a ilusão de um controlo que não temos, e sem as amarras de um futuro que varia todos os minutos à medida que as variáveis que nos contorcem se vão alterando. Quando acordamos todos os dias, há coisas que exigem algo do nosso superego. Olhemos para elas no horizonte temporal que elas exigem. E vamos fazendo como médias móveis, atendendo ao que somos, ao que sentimos, e ao que é essencial fazemos para sentirmos que não estamos a trair aquilo que de mais fundamental somos, o que de nós sobra depois de tudo o mais. É assim que, devagar, o futuro que queremos nos vai ser presente.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

  1. Interessante a adaptação que fizeste do paraxodo, ao tempo.

    Queremos controlar tudo, sim. Presente e futuro. E mudaríamos o passado se possível. Muito bom.

    R.

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