As palavras são uma fonte de coisas mal entendidas. E, no entanto, fazem-nos falta. Se não disseres que me amas, mas me segurares o rosto entre as tuas mãos quando me beijas, procurares o meu abraço ou dormires com a perna sobre mim como que para me segurar, parecerá que apenas me tens carinho, por muito colorido ou intenso que esse carinho seja. As palavras, as ditas e as escritas, são fontes de sarilhos, podem interpretar-se de múltiplas formas, mas fazem-nos falta. Faz-nos falta o amor, a paixão, o ser de alguém. As coisas que se dizem no escuro, ou mesmo às claras sob o sol, como querer estar, dizer que se está bem, que se tem vontade.

Mas que palavras poderiam descrever o que sentimos quando as nossas mãos se tocaram pela primeira vez, no escuro? Quando os corações bateram forte naquele abraço ao relento e ao frio? Que palavras podem usar-se quando os olhares se cruzam? E, por fim, que palavras podem segurar as lágrimas que escorrem dos teus olhos? Poupa o nosso tempo. É escasso. Estilhaça-me as vestes, rasga-mas do corpo enquanto te tento agarrar. Depois devolvo-te o carinho e arranco-te o tecido que te cobre, enrolo as meias das tuas coxas até cairem pelos pés, desaperto-te o soutien apenas com dois dedos, e puxo-te pelo pescoço para mim, para te colares, bem vês, assim ao menos não falamos. Não com a boca. Só com as mãos.

Há pessoas que não precisam de uma razão. De um motivo. Já têm duas razões fortes. Por tudo. E por nada. Há pessoas assim, que não passam, que entendem os nossos silêncios, que descodificam os nossos olhares, que sabem o que vamos pensar ainda antes de o pensarmos. Há pessoas com quem as palavras fazem pouca falta. E, ainda assim, há que as usar aqui e ali. Para que não pareça que é só carinho, ou que é coincidência, ou que o acaso pregou ali uma partida, ou duas. Se não me disseres que me amas, pensarei que é só um gosto muito grande em me ver. Se não disseres que queres foder-me, pensarei que é apenas um acidente, que tropeçaste sobre mim. Se não disseres o meu nome, pensarei que é o meu discurso, e não o meu ser. Há pessoas que não passam. Nunca. Com ou sem palavras.