As nossas cavernas

Platão pertence à História de uma maneira que poucos de nós alguma vez pertencerão, ainda que, para muitos, seja, ou tenha sido, um indivíduo cinzento, aborrecido, diria até maçudo, ou pastoso, conforme se goste mais ou menos de filosofia e, no caso do Platão, conforme se tenha sido mais, ou menos, obrigado a ler A República. Mas n’A República existe um capítulo, assaz conhecido, sobre o qual me apetece deter por alguns segundos. A Alegoria da Caverna.

A Alegoria da Caverna, e apenas como resumo para os esquecidos, trata de indivíduos acorrentados, no interior de uma caverna, que apenas podem olhar em frente e observar sombras que se projectam numa parede à sua frente. Essas sombras são as de pessoas que passam fora da caverna, mas que eles não conseguem ver. Para eles, que sempre estiveram na caverna, a realidade é aquela. As sombras e os barulhos são reais. São a realidade. Mas a um deles é permitido conhecer o exterior da caverna. E conhecendo o que existe fora dela, procura transmitir aos seus anteriores companheiros o que acabou de conhecer. Mas eles não o entendem.

Escuso-me às muitas interpretações a que esta alegoria se presta. Excepto a uma, e é por ela que me detenho, hoje, na caverna. Podemos levar uma vida inteira dentro dela. Mas quando vemos o que existe lá fora, não apetece voltar a entrar nela. Depois da caverna, quando o mundo adquire outras cores, nunca mais volta a ser real aquilo que se vê no escuro. Nunca mais volta a ser preenchedor. E é muito isto, aquilo em que as vidas andam feitas. Pedaços de escuro com pinceladas de côr. Gente dentro das cavernas, porque as cavernas são, por vezes, aquilo que conseguem ter, ou porque levam tempo a sair de dentro delas, ou porque ainda ninguém lhes falou da vida lá fora.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

  1. é isso aí 🙂
    “Depois da caverna, quando o mundo adquire outras cores, nunca mais volta a ser real aquilo que se vê no escuro. Nunca mais volta a ser preenchedor. E é muito isto, aquilo em que as vidas andam feitas. Pedaços de escuro com pinceladas de côr. Gente dentro das cavernas, porque as cavernas são, por vezes, aquilo que conseguem ter, ou porque levam tempo a sair de dentro delas, ou porque ainda ninguém lhes falou da vida lá fora.”

  2. Sinto isto todos os dias. Quando penso no passado, e no que sofri desde lá, acabo sempre por concluir que valeu a pena. Vale sempre. Quando vemos o mundo com outra luz, outras cores, já mais queremos voltar lá atrás. Saudades tenho, mas dos seres, não de mim. Eu sou melhor hoje, fora da caverna e passei a gostar de vento e isso quer dizer muito 🙂
    Grata

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