Perto, mas tão longe

Há gente bem intencionada. Como a pessoa que inventou a ideia de que estar longe da vista é estar longe do coração. Fê-lo, certamente, imbuída do melhor espírito, de uma genuína vontade de desenhar, no ar, uma porta imaginária que consola os sofredores de ausência, uma passagem por onde podem canalizar os seus sentimentos, achando que aquilo que não se vê, não se sente. Procuro evitar um sorriso condescendente quando penso nesse lugar comum. Não acredito nele. Não é verdade. Estar longe da vista é apenas isso. Longe da vista. A vista e o coração não têm ligação directa, e nem sequer necessariamente proporcional. Estar longe da vista pode ser, até, um estado de espírito, mas na redução à verdade, é apenas uma medida de distância, uma situação geográfica, reduz-se ao facto de uma pessoa ter os pés assentes num ponto que dista do ponto onde outra pessoa tem os seus. E os pés sempre distam qualquer coisa, excepto quando se tocam, como se fossem mãos. Mas para as pessoas que se querem bem, perto ou longe, os corações estão sempre perto. De outro modo, não se quereriam bem. Não teriam significado. A distância não desafia, não belisca, a mente. A capacidade de pensar, de lembrar, de querer bem, de sentir. A química que anima os nossos neurónios não se rege pelas regras do mundo físico, aquele onde a maçã sempre cai na cabeça do Newton.

As pessoas têm a mania de morrer. Morre-se por tudo e por nada. Porque tem de ser. Porque se ia na rua e catrapum. Porque se fez uma asneira qualquer e se ficou doente, ou porque se ficou doente porque sim, mesmo sem asneira nenhuma. As pessoas têm o estranho hábito de falecer. Não querem cá ficar. Vão desta, diz-se, para melhor. E no meio de tudo isso, o tempo que aqui se passa é curto. Mais curto que a distância. E talvez, também por isso, as distâncias façam pouco aos corações de bem. Esses sabem que isto é passageiro. E que o querer é o que mais vale. E, então, estar longe da vista é apenas o facto de não ver. Não diz nada a ninguém sobre o sentir. O coração que não vê, também sente. Mesmo que digam que não. E talvez sinta mais. Porque não vendo, não enjoa. Não cansa. Não desvaloriza nada que possa considerar seguro, adquirido, garantido. Os corações distantes são corações receptivos. Atentos. Antes que um qualquer catrapum os leve e, aí sim, fiquem a uma distância difícil de encurtar.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

6 Comments

  1. Antes de terminar de ler o texto, pensava o mesmo que escreveste – ‘O coração que não vê, também sente. Mesmo que digam que não. E talvez sinta mais’. Muito bom.

    R.

  2. Disseste tudo. O facto de estar longe da vista faz com que permaneça mais próximo do coração e mais agarrado a ele, ao longe não há defeitos, nem palavras que magoam, nem dias de má cara. Não se vê atitudes, não se vê sequer a cara, constrói-se um ideal, um sonho e vive-se preso a ele, é tudo perfeito e mágico e o coração gosta de coisas fofinhas e mágicas todos nós sabemos disso, porque a realidade nem sempre é assim tão fofa.

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