Gostava de estar sentado ao teu lado num avião. Fazer-me à pista e dar-te a mão. Não temer o rugir dos motores enquanto ganham momento para descolar. Sentirmos o chão sair debaixo de nós e deslizar entre as lâminas de ar olhando as coisas pequenas lá fora pela janela, mais pequenas e mais longe, enquanto ganhamos altura. Apetecia-me estar contigo dentro de um avião, fosse qual fosse o destino. Podias pedir uma manta, ou apenas ler um jornal, enquanto a minha mão deslizava por entre as tuas pernas, para te aquecer, para, de uma forma um pouco menos figurada, te fazer ir ao céu (novamente). Uma vez ou duas. E depois disso, ou até em vez disso, deixar-te dormir encostada ao meu ombro enquanto avançavamos no escuro, com as asas cortando ar, os dois sozinhos num tubo cheio de gente, cada um com a sua história. Mas apenas tu, e apenas eu, com sorrisos cúmplices, de uma transgressão partilhada.

Gostava de estar contigo na cama, contigo a ler uma revista e eu a ler os meus e-mails e notícias. Terias a tua cabeça sobre a minha barriga, as pernas dobradas, eu tocaria as tuas coxas e trocariamos ideias sobre as coisas do mundo, sobre as coisas das revistas, e sobre as coisas dos e-mails. E quando o cansaço fizesse pesar as pálpebras, deslizariamos para baixo dos lençois e fariamos promessas de uma noite reparadora de sono. Promessas falsas, porque a pouco e pouco desapareceriam os centímetros entre nós, e pouco depois os corpos estariam já colados, e o calor seria tanto que nada restaria fazer senão agitá-los, destapando a pele.

Gostava de passear contigo pelas ruas. Que me agarrasses o braço. Caminhariamos por aqui e por ali. Visitariamos locais icónicos, ou outros desconhecidos. As ruas passariam por nós, as pessoas seriam uns borrões indefinidos, o espaço seria curto, uma bolha à nossa volta. O meu sorriso e o teu. Fotografias. E as mãos juntas, os dedos entrelaçados, ao ar ou dentro do meu bolso quando viesse o vento cortante. Gostava de não conhecer o significado da saudade por não precisar dela. Por ser uma coisa estranha, nunca vivida nem sentida. Talvez mais pobre, com menos conhecimento, mas mais leve, sem o peso profundo de uma ausência. Gostava que estivesses aqui, ou eu aí, ou os dois em parte incerta, distante.