Ao que sabemos, pode não haver amanhã

Estamos deitados, os dois, sobre um estrado bastante comprido que serve de cais, e se agita com as águas, varridas pelo vento. Solidários, deitados de costas, ondulamos também nós, suavemente, olhando o céu, que ali vai de um extremo a outro, em 180 graus quase completos, de mãos dadas. Sabes se o amanhã vai chegar? Não sabia. Atiraste a pergunta para o ar, enquanto os teus dedos passeavam os meus. Não sei, disse-te. Não sei se há amanhã. Divido-me sobre o que pensar. E tu, queres um amanhã? Eu gosto de coisas sem amanhã, gosto do momento, da intensidade, gosto da ideia que me transmite o fazer-se algo como se não houvesse amanhã. Disseste-me que só querias um amanhã se fosse comigo. Se não fosse, bastava-te o agora. O hoje. Que se esticasse, alongasse, que o Sol nunca desaparecesse a Oeste, que as águas nunca deixassem de ondular ao vento. Viraste a cara para mim, falando-me ainda mais ao ouvido e disseste-me que, vendo bem, se as águas nunca deixassem de ondular ao vento, se o cais sobre o qual nos deitávamos nunca parasse de ondular, era um embalo para os nossos corpos. Podiamos ficar colados, apenas, ondulando em conjunto, tudo ao mesmo ritmo, ondulando e ficando, entrando, molhando.

Então decreto que não exista amanhã! E tu sorriste, apertando-me ainda mais a mão, virando a cara para longe de mim, sussurrando, mas eu quero que amanhã estejas comigo.

 

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