Neste momento em que me encontro, vivem-se as primeiras horas do dia doze de Dezembro de dois mil e doze. É interessante, mas não passa disso, um momento no tempo como todos os que existiram antes de mim, e como todos os que espero que existam a seguir a mim. O meu lugar na poeira é pequeno e insignificante, estou no rasto de todos os que, como eu, já passaram por estas datas, as capicuas e as proféticas. Neste momento em que me encontro, aceleramos todos, ao compasso de um ponteiro de segundos, em direcção ao final de um ano, essa compartimentação do tempo, comodismo que nos arruma ideias e papeis. Este é o ocaso do primeiro dia. Sobra um.

Nasceste para quê? Pensaste nisso, alguma vez? Quem és tu afinal? Perguntaram-mo há muitos anos atrás, e do topo dos meus, na altura, quinze ou dezasseis anos, achei interessante responder que não tinha vivido ainda o suficiente para saber quem era. E assim, enquanto colegas meus redigiam alegremente parágrafos sob parágrafos, achando que aquilo que eles eram equivalia a dizer o que faziam todos os dias e que gostos eram os deles, eu rematei o assunto, sem mais, em duas linhas de uma folha pautada. O episódio tem pouca relevância, e se penso nele agora é apenas porque a pergunta “quem és?” está hoje tão viva mas sobretudo tão incerta na resposta quanto estaria todos aqueles anos volvidos. Que poderia eu responder hoje? Certamente mais. Com maior propriedade, e ainda assim tão pouco. Tão pouco de mim. E com tanta dúvida.

As pessoas – muitas pessoas – vivem as vidas que alguém lhes traça. Nasces para ser feliz, em teoria. Na prática, para sofrer. Nasces para fazer a escola toda. Para seres doutor. Para namorares o mais que puderes, sentires tantos calores quantos aguentares e um dia escolher alguém que viva contigo. Ou ser escolhido. Amar para reproduzir, sustentar a vida no planeta colocando sobre ele borradores de fraldas pelos quais te enamorarás sem retorno, feitos do teu sangue, capazes das tuas maiores alegrias e mais profundas dores. E um dia cais de joelhos, velho, diminuído, perdeste o fulgor da vida, aguentas um dia sobre outro ao sabor de medicamentos que te disfarçam as maleitas, poderás ter a sorte de ser um velho contente, talvez esquecido, ou o infortúnio de ser amargo, rezingão. Zangado. É triste chegar a velho zangado. Porque tudo o que foi, passou. E então percebes – se não o havias percebido antes – que a tua vida nunca foi a tua vida. Foi a vida de alguém. Dos teus pais. Dos teus amigos. Da tua mulher. Até dos teus filhos. Mas nunca tua. Nunca tiveste o controlo de nada, nunca foste senhor de ti, e as tuas opções – putativas opções – foram farsas bem desenhadas, jogo de cordéis puxados por alguém. Em velho já ninguém se interessa pelos teus cordéis. E é então que voltamos ao dia em que vais de joelhos. Velho. Pisado pelos dias que correram sobre as tuas costas. Morres.

Que inconscientes somos quando a idade nos coloca abaixo dos vinte. Lembras-te como eras? O universo era tão pouco para ti. Para a energia que tinhas, as ideias, os projectos que um dia te levariam avante. E depois vieram os vintes. Achaste que eras um adulto. Que a vida te traria grandes coisas. Olhaste para os trinta anos como o pináculo da tua vida, e estavas tão iludido, e tão surdo, que ou não quiseste ouvir ou então ninguém te avisou que os trintas seriam o teu maior sarilho até aqui. E pensaste que nunca te aconteceria nada diferente. Que nunca serias arrancado do teu chão. Que serias também tu um velho com cordéis desinteressantes, caído de joelhos, pisado e enterrado, despido das vontades que achavas próprias. Entalado entre os brancos de uns e os pretos de outros, encaixotado, enquadrado, formatado.

A vida são dois dias. A vida são dois dias, ecoa na minha mente. Alguém o disse, repetindo à exaustão esta ideia gasta, mas verdadeira. A vida são dois dias e o primeiro já chegou ao fim, estamos perto da meia-noite e, sentados, de braços caídos, procuramos entender de que forma vamos viver o segundo. É o que nos acontece algures nos trintas. É o que me acontece, agora que o ano chega ao fim. O primeiro dia aproxima-se do fim, como que atirado de uma fisga, sem travão, sem sítio onde me agarrar. Não há botões de pausa. Não há suspensão, prateleiras ou gavetas. Nada onde ficar. É-se atirado e pronto. Resta só a perspectiva, no tanto em que ou ficas a ver as coisas passar, ou passas tu por elas. Sozinho. Acompanhado. Depende.

O primeiro dia chega ao fim quando do entusiasmo eléctrico se passa a um repouso, quando duas pessoas antes frenéticas se deixam por fim repousar, de cabelo colado, molhados, colados, beijos trocados, mãos apertadas de quem não quer deixar fugir o tempo, todo o tempo, aquele tempo. O primeiro dia chega ao fim quando o amor se mostra, quando os corpos são instrumento, línguas que falam mudas, odores, sabores. No toque dos sinos, quando a meia-noite chegar e o segundo dia vier, e finalmente ao ouvido se disser “és terrível, mas eu amo-te”, e industriosa disser que não, que não quer, então sim, o segundo dia está presente, os ponteiros alinham-se todos a Norte, e o tic tac recomeça, aparentemente lento, roubando-te, inexoravelmente, a razão de te queixares dos cordéis desinteressantes e dos joelhos enterrados no chão, sem vontades próprias.

E quando deres por ti estarás nela, e ela estará em ti, e fundidos ouvirão todos os tic e todos os tac, de corações alinhados, em lábios mordidos e unhas lentamente arrastadas sobre a pele, num abandono de sensações, ritmos combinados, cúmplices, arrastados aqui, apressados ali, em ofegantes corridas contra os ponteiros, chegando antes da partida, acabando sem começar, condensando pedaços de tempo num espaço apertado. O teu segundo dia começa assim. Contigo zangado, e com tudo na tua mão. Nas tuas mãos. E nas tuas mãos tens um corpo que treme, que cobres para aquecer, cabelo em que te afundas, e sem falar está tanto ali. Sem nada dizer, está tanto ali. Numas pernas aninhadas em ti, numa alma que deseja, que sente, que te fala quando te olha, que te fala mesmo quando de ti desvia o olhar. O teu segundo dia podia ser assim, coleccionando segundo após segundo. O teu segundo dia podia ser assim, uma vida diferente, uma linha que une pontos que nunca viveste, mas por onde tantas vezes passaste, uma agulha que repõe os comboios todos na estação que te parece certa. O teu segundo dia podia ser perfeito, se acreditasses na perfeição. Se te rebentasse na cara a certeza que mais ninguém tem, a compressão das horas que passam sem veres, sem tocares, sem ouvires. De uma voz que se faz doce, que tu acreditas tanto que mais ninguém verdadeiramente ouve, que mais ninguém genuinamente conhece. Do privilégio. Do espaço. Do tanto por onde te moves, passeias os dedos, libertas os lábios. Da adrenalina que te flui. Do expirar que vem fundo, dos músculos que se descontrolam.

E depois afundas-te. Ainda tens o cheiro nas mãos e afundas-te depressa, a areia cobre-te, tudo te cai, tu cais, o chão é o teu plano, o peso esmaga-te, as cordas fogem de ti e não tens tempo de te agarrar. Este é o começo do teu segundo dia, quando beijaste uma última vez sem saber, quando deste prazer da melhor forma que soubeste, quando esperaste mais, e mais, e mais vezes, quando lembras abraços tão fortes, tão grandes, tão desejados a distâncias tão impossíveis de fazer a pé, e continuas a cair, e a sentir fechar-se um livro que não queres terminar de ler, e que não queres que esteja fechado. E não toleras a ideia de que não deste tudo de ti. Não tens paz na ideia de ter sido sempre tão pouco, tão limitado, tão superficial para o tanto a que podiam entregar-se. Sucumbes perante a dúvida, perante a pergunta de como seria, do que poderias ter feito, do amor que podiam ter. O teu segundo dia começa assim, profundamente zangado, bastante perdido, dorido. A perda é isto, meu palhaço. Grande palhaço. Podes ter nariz vermelho, caracois coloridos e sapatos idiotas, tentar fazer rir, mas não deixas de ser um palhaço triste, pobre, choroso. A ver tudo deslizar-te vida fora, amarrado em cordas que foste agarrando e tomando como tuas, a ver o amor fugir-te, a perder o chão, a combater a ideia de que perdeste o juízo. Não passas de um palhaço que se apaixonou num final de dia e que não tem magia para fazer, que não consegue dizer “presente”, que não tem soluções nos bolsos, não tem nada. Nada. Olhas para um cursor que pisca num computador, que não devolve nada, que não te diz palavras nem expressa sentimentos que sabes que existem, e só tens coisas soltas na ponta dos dedos. Palavras que não resolvem. Que não acalmam. Não reduzem dores, não fazem bem a quem precisa tanto que faças bem.

E afinal o fim do mundo foi hoje, para ti. O fim do mundo como o conheceste. Como o imaginaste. Sem a noite que querias. Só pedaços de dia, apertados, só abraços escondidos, só a incapacidade de dar uma merda de um passo resoluto que fosse, que te fizesse finalmente sentir que a vida é tua e não dos outros, que te levasse ao lado de quem desejas. Vais ser velho, meu amigo. Vais ser velho, rezingão. Sofrido. Sempre, para sempre, com a ideia de que perdeste qualquer coisa, de que foste o segundo no pódio, actor secundário, uma poeira. Com tantas memórias. Tantas vezes o teu nome dito ao teu ouvido, tantas risadas, tanto sentir.

Afinal o fim do mundo foi hoje. Para ti. O teu segundo dia foi o fim do primeiro. E não te conformas. Porque não sofres sozinho. Porque se te sentes tão mal agora, sabes que há um espelho, há quem sofra contigo, por ti, amando-te tanto ou mesmo mais. Porque sabes que há um olhar preso no horizonte com palavras que não diz, mas quer. E tu és apenas e só um cobarde. Um falso moralista. Um falhanço.

Nem chorar decentemente consegues, meu idiota. Agarrado ao medo que te vejam. Que te oiçam. Que sintam o que explode dentro de ti, o grito que agarras. O quanto te contorces porque sabes que o fim do mundo veio quando veio, da maneira que veio, porque só assim to conseguiam dar sem partir. Sem quebrar. Sem recuar.

E agora? Como vamos fazer isto, meu caro? Quem és tu? Nasceste para quê? Se nunca te limitaste ao jogo dos corpos, trouxeste sempre a alma para dentro da arena, foste mais amor que sexo, nunca fizeste nada que não envolvesse sentimentos.

Como vais fazer isto, que dias te esperam agora que o mundo terminou? Sentado no teu canto, sem subir nem descer, sem momentos de luz dourada a entrar pela janela.

Que sorte é a tua? Que passos são os teus? De que forma bate agora o teu coração?