A grande curva de Gauss

Esqueça o Euromilhões, porque é muito provável que não lhe tenha saído, e leia isto com os pés bem assentes na terra. Lembrar-se-á, certamente, de como em criança muita coisa lhe era permitida. Com umas educações mais permissivas que outras, é certo, os primeiros anos de vida são marcados por alguma liberdade. Não deixa de ser, à sua maneira, um paradoxo: dependemos dos pais, não podemos ir sozinhos para muito longe, não garantimos por nós mesmos os essenciais da vida, e nem sequer temos uma consciência plena de tudo quanto nos rodeia – das coisas visíveis e das dissimuladas -, e no entanto somos, provavelmente, o mais livres que alguma vez seremos. Na máxima extensão da nossa ignorância, o que nos pode fazer terrivelmente felizes, não nos afectamos pelo que não sabemos, e, mais ainda, se o dom da fala já nos assiste, podemos dizer praticamente tudo quanto quisermos porque não nos levam a sério e até acham graça ao petiz. Apenas não convém relatar tudo o que se vê em casa, os pais não gostam.

Essa liberdade vai diminuindo com o tempo, mas em adolescente ainda é possível dizer tudo quanto se quer. Ser-se-á interpretado como um rebelde, como apenas mais um na grande curva de Gauss, um tipo normal, portanto. Convenhamos: os adolescentes não se levam muito a sério, pois não? Olhamos para eles – qualquer que seja a distância que nos separa dessa fase – como uns palermas que ainda não sabem muito bem o que dizem e o que querem. Esse atestado automático de idiotice é precisamente aquilo que lhes permite dizer qualquer coisa sem especial prejuízo para as suas carreiras. As que eles ainda não têm.

No momento em que se avança para o final dos vintes e se navega bem dentro dos trintas (e isto durará por boa parte dos “entas”), com as tentativas de construção de carreira e solidez do Nome, a liberdade cai a pique. Possivelmente – assim se espera – estaremos já em condições de garantir alguma subsistência. Já não dependeremos dos pais como outrora, podemos ir para longe sozinhos e chegar a casa tarde ou quando calhar, mas a nossa liberdade estará no seu mais baixo nível. Por uma razão muito simples: as pessoas não gostam de gente sincera, directa, frontal. Se dizes o que pensas, lixas-te. Já não tens a tolerância da adolescência nem a condescendência que virá com a senilidade. Já não pensam que és um palerma de ideias vagas. Passaste a ser um concorrente, e a Terra é finita, e portanto há um conjunto também finito de oportunidades interessantes. As pessoas tornaram-se dissimuladas, deram o salto de adolescentes desbocados para adultos de sorriso made in china, e preferem que lhes mintam. Mentir garante sobrevivência. Ser frontal garante dificuldades. É isso – se nada mais houver – que determina a diminuição abrupta da tua liberdade, seres avaliado pela tua conveniência e sentido de oportunidade mais do que por aquilo que sentes e sabes fazer.

Só recuperarás a tua liberdade quando estiveres perto do fim da tua vida. Nessa altura, se os sapos não te tiverem morto ainda, concluirás que já não te podem afectar grandemente. Que o que tinhas a fazer, está feito. É então que te desbocas e tornas livre de novo. E podes dizer tudo o que quiseres, podes ser frontal e directo, sem medos, sem o sentido da conveniência ou da oportunidade. Acusar-te-ão de senilidade. Mas é muito provável que essas acusações venham dessa gente que não gosta daquilo que dizes e que tem medo da nudez da verdade. As coisas que se dizem entre o fim da adolescência e o princípio da putativa senilidade, são exercícios de risco calculado, e não deixa de ser bastante aborrecido pensar-se que pouco depois da reconquista da liberdade, venha a tumba.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

4 Comments

  1. Concordo que isso seja tendencialmente assim mas não tem de o ser. Chega uma altura em que se deixa de precisar de ser “aceite” e se sinte a liberdade de dizer o que se pensa, com educação, claro. Há pessoas que reagem mal e se afastam, porque não sabem lidar com a frontalidade ou porque não gostaram do que ouviram. Paciência. Parto do pressuposto que vale a pela ir para além do esboço de um sorriso, seja pelo princípio, pela pessoa ou pela relação. O que me detém é quando sinto queposso magoar alguém com a minha liberdade e nesse caso tento ser cuidadosa mas não abdico de ser o que sou.

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