Bom dia. Um croissant com queijo e manteiga. Um croissant com fiambre, sem manteiga. Um néctar de pêra e um galão por favor. Uma mesa. Gente. Barulho. Dois. Sentados com as mãos unidas por baixo da mesa, com as pernas juntas, entrelaçadas ou apenas numa pressão que diz “abre-me”. Seis vinte. Obrigado e até depois. Abre-me. Passeamos entre as gentes, os sapatos trilhando passos em calçada ou paralelo, a mão no rosto e um beijo. E o baloiço no ritmo. A ausência, alheamento, gotas que escorrem na pele até encharcar. Manteiga e cabelos colados.  Mortes seguidas a mortes. Falta de juízo. Até aborrece.

E depois vieram os dias grandes, veio o calor, a roupa ficou mais curta e menos numerosa, mas os calores que aquecem os corpos, como fogueiras debaixo de lençois, estavam amarrados. Já não havia pedras de calçada num caminho nocturno, lento, para um miradouro, não havia o olhar trocado a uma mesa que insistia em dizer “abre-me”, não existiam as mãos cruzadas atrás do pescoço, as unhas cravadas, o agarrar fervoroso que grita abre-me, abre-me, abre-me. Nas voltas que o mundo deu, rodou demais, e atirou tudo para longe, dispersando os croissants com queijo e fiambre, roubando a manteiga e os néctares, separando o café do leite.