Dizias-me que ias espreitando, acima das águas, de vez em quando. Na praia, longe, estava eu sentado, com a minha fogueira, acesa dia e noite, queimando madeira em labaredas enormes, visíveis a muitos quilómetros da costa. Muitos quilómetros, por oposição a muito poucos milímetros, quando o tempo era outro e as noites mais longas, quando se passava por torres muito altas onde a paisagem era extensa mas invisível, sob um manto de nevoeiro espesso que nos remetia para o escuro e para o silêncio interrompido pela pele contra a pele. Dizias-me que ias espreitando, de vez em quando, só para ver a fogueira. Só para me ver. Um sinal de vida, um sinal do calor, a certeza de uma chama activa. E disseste que me preocupasse quando deixasses de aparecer. Quando deixasses de espreitar, erguendo a cabeça acima das águas, deixando de olhar para a praia, deixando de procurar o meu cheiro no vento.

Enterrados os pés na areia, atiço a chama com um galho próximo, e observo o horizonte, atento, varrendo com o olhar tudo quanto à minha frente se apresenta. E não te tenho visto. Não te tenho ouvido. O vento não tem carregado com ele o teu cheiro. Inquieto-me, afundando os pés da areia fina, achando que chegou o tempo da profecia, o tempo em que devia preocupar-me, como havias dito, que seria mau sinal, que seria da côr das costas voltadas quando deixasses de aparecer no horizonte, quando do meu varrimento resultasse o nada. Deixando o galho chamuscado cair sobre a areia, já envidraçada do calor, talvez fosse, então, de deixar a fogueira esmorecer. Se já não existem sereias nem barcos ao largo para guiar, talvez fosse, talvez seja, de deixar as labaredas cair ao vento, deitá-las para dormir, tirar-lhes, a pouco e pouco, a madeira para queimar, devagarinho, sem pressa, até ficar apenas uma chama-piloto, como nos esquentadores, até que um qualquer olhar acima das águas consiga discernir uma luzinha pequena, acesa, testemunho, ou uma mão rode por fim a torneira que chama a água quente, bem quente, que molhe e escalde, que convide às mãos que ensaboam e traçam, a espuma, caminhos conhecidos, que da água levam à praia e aos lábios mordidos.