Enquanto estou imóvel a observar um gin tónico acabado de preparar, noto as gotas que escorrem no copo, escuto as pedras de gelo que estalam, e antecipo o sabor que vou levar aos lábios. Um, como outros, sabores conhecidos que levei aos lábios, a que me habituei. Mas o sabor da ausência é amargo, de um amargo diferente de uma água tónica adocicada por um gin. Lembro-me do tempo em que achava que era difícil, senão impossível, manter uma relação de amizade com quem se amou. Que isso era insistir em existir num espaço onde se havia falhado por uma qualquer razão, que as pessoas tinham de seguir em frente com as suas vidas, noutros rumos, em linhas divergentes. Pensava assim, outrora. Hoje não. Há mais anos de vida, há outras experiências, e um outro optimismo (um pessimismo mal informado, sim, conheço a ideia) que me diz que as pessoas que se querem bem não precisam estar uma vida inteira a fingir que não existem.

Compreendo bem que os finais de alguma coisa conduzam a um muito útil luto, um momento de pacificação em que removemos energia aos electrões e os puxamos para órbitas mais próximas do núcleo, para os arrumarmos, para reduzir a excitabilidade que existe nas nossas moléculas. Faz sentido, certamente. Mas não precisa ser sempre assim. No final, morremos todos. Não fica aqui ninguém. E as vidas já são difíceis como são, não precisam que lhes adicionemos sofrimentos intencionais. Mas nós somos complicados. As nossas malhas cerebrais roubaram-nos à simplicidade do instinto que governa os animais. A nossa racionalidade, aquilo que nos separa e faz animais diferentes entre todos os outros, é também uma grande fonte de sofrimento, é uma componente da nossa personalidade que tanto nos impede de dar passos em falso quanto, no momento seguinte, nos faz chorar pelos passos que nos apeteceu dar e agora não se devem trilhar mais, por mais certos que nos pareçam ter sido. Enquanto bichos, somos difíceis. Os irracionais, que olhamos por vezes com certo desprezo, na sobranceria dos nossos cérebros mais evoluídos, fazem as vidas mais simples.

E no meio desta névoa do querer e do poder, do certo e errado, estar ou não estar, o que sobra é aquilo que significamos uns para os outros, no nosso íntimo, nos ecos da nossa solidão, o quanto nos marcámos. Na carne, e na alma. No meio de tantas pedradas e violências, com tantos motivos de dôr que as vidas nos reservam, é o quanto nos resta. Sentir e querer bem. E se alguém quiser negar isso a outro, quando se quer subtrair aos outros o direito de sentir e querer bem quem os fez ver outros mundos, estamos a ser egoístas e inseguros. E a negar que todos, nas suas vidas, estão sujeitos a isso. A ver mundos para lá do mundo.