E assim, de repente, não sentes nada. É falso. Porque não tens interruptores. Mas ficas sem nada. Nada aqui. Nada ali. Nada em lado algum. É o preço que pagas por ir fundo. Por ir longe. É o arremesso, que como fisga te tira o recheio e te deixa casca. O sorriso dos dias dá lugar à penumbra. Não sentes tristeza nem felicidade, ficas um ser amorfo, vagueando pelo tempo à espera de um dia voltar a sentir as picadas dos alfinetes, de um dia voltares a sentir dôr, de um dia voltares a sentir qualquer coisa que se pareça minimamente com amor.

A emoção deixou-te. O brilho abandonou-te. O calor das mãos fugiu-te. Foram-se os talentos, as graças, e as vaidades. Respiras porque é automático, porque não precisas querer para o fazer, porque o corpo se mantém vivo em alma morta. O teu olhar ficou dormente. E assim, de repente, não sentes nada. Só o negro do vazio. Só o Sol a esconder-se no horizonte, e a noite sozinha a cair. Sobre as paisagens, sobre as pessoas, sobre ti. Ficaste sem voz. Ficaste sem escrita. Ficaste sem sangue acelerado por coração vivo. Cada um sabe de si, e tu nem de ti sabes. No caminho de seres Homem fizeste-te ao deserto, e agora o deserto está em ti com toda a sua extensão, sem oásis, só areia. Grossa. Desgastante. Pesada.