Observei-te durante muito tempo. Cheguei muito antes da hora combinada e fiquei, ao longe, a observar o banco de madeira com vista para a água, onde haviamos combinado encontrar-nos. Vi-te chegar. Sentar. Olhar à volta, procurando-me. Depois fixaste o teu olhar na água e assim te detiveste, até me sentar ao teu lado. Abriste-me o teu sorriso. Foi luminoso. Foi bonito. Foi muito bonito mesmo, agora que o recordo melhor na minha memória fotográfica, onde estão os detalhes todos, alguns em fotograma que congelou o momento, outros em pequenas sequências animadas, com som, com cheiro, com tacto.

Ao caminhar em direcção a ti lembrava-me…

Sou tão tua. Acordei assim, vês, sonhando que me dizias isso. Sou tão tua. Sentada ao meu colo, de olhos fechados e cabelo caído sobre o corpo, dizendo que és tão minha. Acordei assim, pensando que tinhas a tua mão na minha face enquanto me beijavas numa escada qualquer, em jeito de despedida, como quem vai ali e já volta. Ou que juntaste as mãos perto do peito, enquanto te abraçava, como menina doce que procura um carinho. Sonhei. Pensei nas coisas que não vivi, onde não estive, o que não vi. Pensei nas coisas que nunca ouvi, que nunca disseste. Nunca escreveste. A menina e as palavras, a cansar-se, a desejar a telepatia que a poupasse de ir de A até B, verbalizando, levando aos lábios os sons que levariam tempos infindos por comparação ao pensamento. Ao sentimento. Que é tão mais rápido. Que num suspiro sai tudo. Mostra tudo. É tudo.

Deixei-me cair várias vezes sem cair. Sem levantar. Sonhando apenas. Tropeçando. Tombando. Levantando e tombando de novo. Morrendo vezes seguidas. Fazendo morrer vezes seguidas. Sonhei com lagos, sonhei com água agitada ao vento, com pressa. Sonhei com a pressa de chegar, acelerando estrada fora. Sonhei com neve. Com chuva. Com dias pequenos e escuros. Sonhei com néctares e manteiga. Com coisas pequenas que fazem pensar em vastos Impérios. Com lojas de bairro e kanimambo. Com gargalhadas sonoras perdidas de loucas. A menina não existe. Nem eu existo.

… e então sentei-me ao teu lado nesse banco, e ficámos os dois a olhar as águas do lago. As mãos tocaram-se, e disseste baixinho “quero explicar-te”. E eu, “nada”. Não expliques nada. Não é preciso. Eu entendo, eu sei.