Dos cinzentos deslizantes

Para mim a vida era simples de categorizar. Ou era branca, ou era preta. Não havia segredo. Nem truque. Nem nada além disto. Tomava-se uma posição e ficava-se nela. Como facções. Ou estávamos de um lado, ou contra ele. Branco. Preto. Como tabuleiros de xadrez. Estava errado. Com o tempo vim a entender que a vida não se faz de brancos e pretos. É como as probabilidades. As probabilidades oscilam entre zero e um, entre a impossibilidade e a certeza. Mas nunca temos a certeza de nada. Nem a certeza da certeza, nem a certeza da impossibilidade. As probabilidades são, para mim, cinzentos da matemática, assim como os dias que vivemos, entre o momento em que acordamos até à cama onde nos deitamos ao fim do dia, são os cinzentos da vida. Contas feitas, matemática esgotada, os brancos e os pretos não existem. Só existem cinzentos. Uns muito claros, que quase parecem brancos, e outros, muito escuros, que quase nos parecem pretos. E, entre eles, um infinito de gradações em que nos movemos.

Uma existência a branco e preto é conveniente a superegos muito dominantes. No domínio da moral, quando a moral nos pesa para além de um núcleo indispensável, com demasiadas excrescências, com coisas que não são inteiramente nossas, os brancos e os pretos dão jeito. São confortáveis. As coisas ou são, ou não são. Não temos de testar o nosso superego. Não o colocamos à prova. Conformamo-nos. É um aborrecimento ter de assumir que a vida tem cinzentos. Dá trabalho. Obriga-nos a olhar para dentro, a questionar aquilo em que acreditamos. Provavelmente com medo. Porque tantos anos seguidos a alimentar um superego, choca perceber que ele é, porventura, mais pesado do que precisa. Chocará perceber que deitar uma boa parte dele fora não nos torna piores, não faz de nós seres amorais, não nos retira coluna, pilares, princípios. Apenas nos torna mais adaptáveis aos imprevistos. Permite-nos deixar falar mais o id, permite-nos um ego mais solto, permite-nos inalar o cheiro da vida a plenos pulmões.

Julgo que somos ensinados, muitos de nós, a suprimir o id. É-nos dito que o id é coisa geradora de pecado, que não é suposto a vida ter piada, que apenas os domínios do ego e do superego devem ser alimentados, que o instinto, que o desejo mais primário, é fonte de perigos e contratempos. E isso gera, inevitavelmente, gente branca. E gente preta. E gente sem graça. A vida está nos cinzentos, digo-vos. É neles que apetece deslizar. É neles que está o sumo dos dias. E o truque, afinal, é meter tudo no lugar certo. Não deixar nenhum deles abafar-nos ao ponto de nos tornar tristes e frios. Soltar o id nesses cinzentos, e esquecer os brancos, esquecer os pretos. Porque não existem.

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