A Marta e o Jaime são adultos. Casados e com filhos. Cruzam-se e percebem que são iguais. Que as cabeças encaixam uma na outra como peças de puzzle perdidas e reencontradas, e como os corpos obedecem às cabeças, não há esforço nem sacrifício, é tudo natural, deslizando como se não existissem entraves, como se o mundo fosse uma pista de gelo sem fim e eles patinadores, fundidos, um no outro. É essa a percepção que a Marta e o Jaime têm. O id resolve. O impulso primário é arrancarem as roupas um ao outro, mesmo que os outros estejam a ver, e derreterem-se em gotas de suor. Sem pudor. Logo ali. Se preciso for até mesmo com gente a passar ao lado. O ego diz à Marta e ao Jaime que precisam esperar que ninguém esteja a ver antes de se agarrarem, e que só depois, em absoluto segredo, se podem atirar aos braços um do outro, seja perto do chão, ou num vigésimo andar, ou debaixo de uma árvore. O superego diz-lhes que não o podem fazer, porque é moralmente errado. Porque há valores que respeitam e querem preservar, porque a vida se conduz por entre pilares que seguram as coisas nos seus sítios.

Tudo muito bem, dizem eles. Que seja, que tragam o Freud para dentro da cama deles, que se vejam os seus comportamentos à luz da complexidade dos comportamentos humanos. Não querem saber. Querem soltar o id sem rédeas, querem pingar todo o suor, querem gemer tudo quanto possam, morder os lábios, agarrar cabelos, cavalgar sem freio. Como se não houvesse amanhã. Mas sempre vem um ego que os segura. Que torna as paredes, contra as quais se querem empurrar, rugosas e dolorosas, que seca os corpos e dificulta o encaixe do puzzle. E o raio do superego ainda vem meter-se, criando a ideia de que alguma coisa, não se sabe bem o quê, não pode ser assim. Não deve ser assim. Que os pilares abanam e as coisas mudam de sítio.

E no final do dia, quando as luzes se apagam por fim, quando o corpo vai à cama e a cabeça na almofada viaja para longe, quem comanda o sonho? O id, o ego, ou o superego? Conta lá Segismundo, se não é o id o mais poderoso de todos eles, o que grita mais alto, e dá luta ao ego e ao superego, que todos os dias, minuto após minuto, tiram o ar do id e o sufocam nos brancos e nos pretos das vidas espartilhadas por limites e convenções traçados por pessoas sem rosto, amálgamas de gente que contraria o id com medo de perder o Norte. Conta lá Segismundo, se a complexidade humana é assim tão complexa, ou se somos apenas bichos simples com camadas e camadas de receios, abafando os nossos id porque ninguém nos soube ensinar de outro modo, porque foram gerações sobre gerações a injectar-nos egosuperego em doses industriais, julgando que sem isso seriamos apenas animais?