A morte é uma coisa que vem. Espreita. A morte às vezes vem depois de vir, como a petite mort dos franceses. É certa. Arranca as pessoas de onde estão. Ainda agora está aqui, e agora já não. Porque ainda há pouco dizia coisas, e a pele estava quente. Porque ainda há pouco repetia o meu nome chamando por mim, e agora não. Porque podia tocar-me, e agora não me toca mais. A fisga da morte arranca lábios, remove as pessoas dos abraços. A morte produz o vazio, porque ainda agora aqui estavas e agora já não. Na verdade tudo isto é como uma morte, que preferia que fosse francesa, mas é tão nossa, local, coisinha próxima daqui, em que morremos sem ter morrido. Vamos morrendo. Em morte-maria.

Teria sido mais fácil se fosse real? Se não fossemos morrendo, ao tic e ao tac, mas tivessemos mesmo morrido para debaixo do chão? Respiro ainda, respiras ainda, mas não vemos, não ouvimos, não estamos. Não há pele quente, não existem cabelos ao ar, os braços não agarram nem apertam. Não existe a transcendência da morte dos franceses, não existe senão a distância, que de tão pouca se estica e faz oceânica, o silêncio, que pica, e o luto, de gente pintada de negro por dentro, de memórias que não se escrevem nem contam, enquanto se encolhem os ombros e se vai dizendo que é o que é, que é muito isso, que deixe lá senhor, que vamos morrendo, assim, andando por aí, de passo em passo, sem ouvir, sem falar, sem escrever. Vamos morrendo, em morte-maria, de saudade portuguesa, como a calçada, feita de pedras que se carregam como se de pedras fossem também feitos os corações. Que não são. Deixe lá menina, que vamos morrendo, andando por aí e por aqui, pelos sítios onde a morte já espreitou e já não há ninguém, só gente escondida, num tic e num tac, esperando e morrendo.