O homem está sentado à mesa. Mesa com duas cadeiras, frente a frente. Mas a cadeira em frente a ele está vazia. Ele está seráfico. Nenhum músculo do seu rosto apresenta tensão, não há expressão alguma, há apenas um homem sentado com as pernas perfeitamente alinhadas e joelhos a noventa graus, e as mãos sobre a mesa, abertas, de palma para baixo, sem movimento, sem corpo para agarrar, sem emoção. Apenas a madeira, inicialmente fria, agora aquecida pelo corpo que apesar de morto na superfície, irradia calor.

A cadeira em frente está vazia e em ângulo, denunciando alguém que partiu, e ao fazê-lo a afastou de rompante, sem aviso. O homem esperou-a durante três dias quando as emoções se sentiam a tantos milhares de quilómetros. Quando entrou pela porta o homem avançou resoluto em direcção ao seu corpo e abraçou-a de imediato. E ela devolveu o gesto, encostando-se a ele. Mas tinha medo. A princípio tinha medo. E então agarrou-a de novo, cruzando-lhe os braços atrás das costas, puxando-a para ele. Repetiu o nome dele várias vezes. Ao ouvido. Uma vez. Duas vezes. Várias vezes. Insistentemente. E enquanto se recolhia no colo dele, ele cheirava-lhe o cabelo e dizia “cheiras tão bem”. E esse lenço, esse lenço que ela trazia enrolado ao pescoço e que ele puxava, querendo puxá-la cada vez mais, querendo levar as mãos a todo o seu corpo sem vagar. Toda ela encostada a ele. Toda ela a perder o domínio. E a dizer o seu nome. E a afastá-lo com a mão no peito. E a querer sair dali. E ele a tocá-la de novo e ela a dizer que tinha de parar. E ele parou.

Enganaram-se durante algum tempo. Iludiram-se. Acharam que era possível não estar. Mas a ausência era cada vez mais pesada, e os sinais eram cada vez mais evidentes. Sinais de proximidade, de semelhança.  De querer, de estar, de ficar. Tanto suor, tanto. Minutos, horas, quilómetros, dimensões do espaço e do tempo que se ultrapassaram para um olhar, um toque, um abraço indestrutível, apertado nos braços e colado nos corações. Queimou-se tudo, toda a terra à volta, partiram-se cidades de anos e anos, prédios vieram abaixo, todas as pedras se revolveram, não ficou nada em cima de nada. Ergueu-se, lentamente, um caos que levantou poeiras e tirou as coisas do sítio. E colocou-as noutro. Agarrados lançaram-se contra as barreiras que se ergueram no caminho. Até que pedras mais violentas embateram nas faces e fizeram sangrar. E sentaram-se. Um de cada lado da mesa quadrada. Sem palavras ela levantou-se. E ele nunca mais se moveu. Deixou a cadeira arrancada do seu lugar, tal como ela a deixou. Repousou os seus músculos, esvaziou-se, acentuou o vazio da sua ausência. Pesada. Triste. Violenta. Até que ela se voltou a sentar, e disse o nome dele. Uma vez. Duas vezes. Várias vezes. Insistentemente.