Preparo-me para defender uma ideia em que acredito – ou, de outro modo, não a defenderia -, sabendo que não é consensual, que não tem aplicação universal. Aliás, diga-se, pouco do que eu defendo tem aplicação universal. Pensá-lo é um exercício de soberba. Defendo aquilo em que acredito, em algum momento da vida, sendo isso válido para mim e, com sorte, para um punhado de uns quantos mais que por infortúnio se revejam nas mesmas ideias que eu. E a ideia de hoje é tão simples quanto a de foder. Como se foder fosse simples. Mas para o caso, para este caso, é. Simples em comparação com o quê? Com o sexo oral.

À medida que os anos foram passando, fui recolhendo opiniões – mais opiniões do que experiências conjugáveis na primeira pessoa do singular – de homens e de mulheres sobre o sexo oral. Os homens, por regra, não o dispensam. Não dispensam que lho façam. Gostam (gosto! gostamos!) que as mulheres com quem estão tratem os seus pénis com adoração, com venerando linguajar, que os seus pénis sejam o derradeiro chupa-chupa à face da Terra e de todos os outros planetas habitáveis. É, talvez, o aspecto mais consensual que encontro. Daí em diante, dá-se a divisão. Os homens, compreendi do quanto ouvi, nem sempre devolvem na igual medida. Se gostam que as suas mulheres se entreguem aos seus pénis com devoção inquestionável, nem sempre se apresentam dispostos a mergulhar entre duas coxas, lambendo com incomparável satisfação as vulvas das suas companheiras, alimentando o prazer com o místico resultado de uma vagina sumarenta. É uma pena. E entre as mulheres, bem sabido, também nem sempre se encontra quem queira abocanhar um pénis com gosto, brincando com ele com atrevimento, não temendo sequer o resultado de um fellatio bem feito, um inevitável e caloroso jorrar.

Assim, com o tempo que passava, autorizei-me meditar nisto e concluir que, tudo sendo sexo, foder – no sentido de copular, introduzir o pénis na vagina e dar-lhe com ânimo -, é mais fácil, emocionalmente mais simples, do que usar a boca para dar prazer. A genitália está suficientemente afastada do centro da nossa identidade (o cérebro), anatomicamente falando, para que dar-lhe uso seja uma coisa mais simples de automatizar e desligar de alguns sentidos e/ou sentimentos. Por outro lado, levar a nossa boca à genitália de outra pessoa é levar-nos, intimamente, a algo que nos exige o envolvimento não apenas do tacto mas também do paladar e do olfacto (a visão, para o caso, dispenso-me comentar). Enquanto fodemos estamos potencialmente abstraídos nas sensações tácteis e próximos da outra pessoa, podendo isso acontecer mais, ou menos, consoante ali estamos para amar ou para usar. Mas quando vamos de boca disponível ao encontro de uma genitália, penso, eu que sou romântico, que precisamos verdadeiramente amar. As mulheres vão receber nas suas bocas um pénis que pode não lhes criar verdadeiro conforto, que pode não lhes saber ou cheirar bem. O mesmo se passa connosco quando nos afundamos de frontispício numa vulva. Vamos conviver com odores e sabores que não sabemos – à falta de experiência prévia com essa mesma vulva – se nos vão agradar. E é por isso, de uma forma muito sintética e provavelmente atabalhoada, que eu acho que entre copular e dar prazer oral, a primeira forma de exercício é muito mais simples, menos exigente. Ainda que pressuponha entrega e abertura da reserva íntima como qualquer outra forma de sexo, a dança ritmada de genitálias consegue ser mais blindada do que envolver as nossas bocas e línguas, envolvendo a nossa capacidade de saborear e cheirar.

Assumo-me profundo apreciador da oralidade. Como qualquer homem que se preze, quero o meu pénis venerado e desaparecido entre os lábios (todos eles, por sinal) da mulher com quem partilho a minha intimidade. E, como qualquer homem que se preze, quero atirar-me sem reservas a uma vulva sumarenta, por via da qual possa dar prazer à mulher que quero. E ao pensar assim, sinto que isso exige mais de mim do que o coito. E que se assim é para mim, talvez também para vós assim seja.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

5 Comments

  1. Sempre em cima do acontecimento, continuas a ira ao cerne da questão. Absolutamente verdadeiro, nada exige mais entrega que o sexo oral, o verdadeiro prazer em dar prazer.

    Já li alguns textos teus, e gosto do que aqui se diz.

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