A dissolução das moléculas. O fim do mundo é a desconstrução de tudo aquilo que és. É quando te dissolves. É quando o novo mundo começa. Pesam-te as pálpebras e estás sentado, sozinho dentro do teu silêncio, com chinelos enfiados nos pés e, à tua frente, um conjunto de comprimidos. Estás doente. De coisas que não causam dor mas te comem por dentro todos os dias, todos os minutos. Chegas uns centímetros à frente o teu pé esquerdo. Vais entrar num novo ano, numa convenção cómoda, sentado, imóvel, com o teu real existir suportado por um planeta que desliza no vazio em direcção ao fim de todas as coisas. Tens setenta anos e decidiste finalmente ser do contra. Decidiste, finalmente, fazer tua, a tua vida. Pé direito não. Chegaste uns centímetros à frente o teu pé esquerdo, porque é com o pé esquerdo que queres entrar no novo ano. Porque o teu pé esquerdo não é pior que o direito, porque o teu pé esquerdo é como a tua mão esquerda, aquela com que escreves, com que melhor fizeste as coisas da tua vida. Que entrem os outros de pé direito onde quiserem. Tu entras com o esquerdo.

Revoltaste-te tarde, mas revoltaste. Achaste que, por uma vez, a tua vida ia ser a tua. Mesmo a tua. Não a vida que os outros desenharam para ti. Nos minutos que te sobram antes do novo ano, deténs-te a observar, como alguém distante, o teu passado. Os dias que somados deram tudo onde estás. E descobres que poucos desses dias foram teus, que foram dos teus pais que sempre te quiseram o melhor, dos teus amigos, que esperaram de ti um exemplo qualquer a seguir, dos teus colegas de trabalho e dos teus chefes e clientes, que quiseram de ti um empenho sempre maior, e te tiraram tantas vezes do cheiro da relva, do sol na cara, da areia entre os dedos.

Descobres que tiveste pouco das tuas próprias escolhas naquilo que te levou até esse momento de revolta muda, esse momento interior em que, sem ninguém saber, decidiste entrar com o pé esquerdo à frente, ignorando tradições e superstições, querendo de algum modo, agora que a vida te foge, sentir por um segundo a liberdade da escolha, sem ninguém, sem pressão, sem bagagens, correntes, receios. Olhas para tudo quanto ficou e estás amargurado. Agora que as pálpebras te pesam na noite que avança e te come, reconheces-te zangado com todos os vértices do polígono que se fecha, quando sentes que estás a voltar para o sítio de onde vieste. O pó. A contagem começa, a meia-noite aproxima-se, e onde outros têm uvas-passas e copos para brindar, tu tens um punhado de medicamentos e um copo com água. E o pé esquerdo, teimoso, um tanto à frente. E apertas a mão com força, aquela que te resta, e o teu coração, hoje mais fraco, acelera.

Estalam furiosos tachos na rua, rebentam foguetes, gritam os jovens – a quem tanto querias avisar para viverem – e tu sentes que entraste em mais um ano de calendário. Mas estás praticamente morto. Por dentro mais do que por fora. Libertas a mão e deixas cair no chão os teus comprimidos. Deixas o copo com água sobre a mesa. E adormeces num sonho em que fizeste os teus dias teus, apesar de tudo e todos, vivendo sofrimentos diferentes. Entendendo que as vidas, todas elas, têm sofrimentos, restando saber se são vindos de ti ou dos outros, quem tos escolheu, quem tos orientou. Adormeces sonhando que foste feliz.