Chovia terrivelmente. A água aterrava no carro como calhaus e sem limpa pára-brisas a funcionar nem um metro se via. Estava estacionado. As luzes do teu carro iluminaram o lugar ao lado do meu e estacionaste também. Pelo meu vidro consegui ver-te. Olhámo-nos. Sérios. Faltavam poucos instantes. No rádio do carro, que estava ligado conforme o plano original, ouvimos dizer boa noite, era uma hora da manhã. E ao ouvi-lo, ecoou na minha memória a pergunta. Vamos para a cama? Vamos. E como vamos fazer isso? O plano estava em curso havia algum tempo. A ideia era simples. Ir para a cama contigo e no entanto nunca o ter feito.

Assim que no rádio aquela voz anunciou que era uma hora da manhã, desligámos tudo apressadamente e apesar da chuva corremos para um alpendre, e dele para casa. Sem tempo a perder abri a porta, puxei-te para dentro do quarto e empurrei-te contra a parede. Encostei-me a ti e disse-te como seriam as regras do jogo: não existiam. Excepto uma: eu mandava naquele cenário. Arranquei-te a roupa movido por instintos primários, vi elásticos voar, botões gemer, coisas a cair pelo chão. Beijei-te enquanto te segurei pela nuca e depois atirei-te para a cama. Cordas. De escalada. Prendi-te pelos pulsos e pelos tornozelos. Naquela cama podias contorcer-te tanto quanto quisesses. Mas não podias proteger-te. Não podias fechar as pernas. Não podias evitar ser dominada. E nem sequer podias ver, à medida que sobre os teus olhos descia uma venda que te privaria da visão. Torturei-te por longos minutos. Tocando, deslizando as mãos, os dedos, evitando os pontos que te davam mais prazer, fazendo crescer em ti uma bolha que precisava rebentar, mais segundo menos segundo. Disseste-me que não aguentavas mais, que te fizesse vir já. Depressa. Ontem. Olhei para o relógio e disse-te ainda não. Havia tensão, debatias-te, reagias ao toque com espasmos, estavas muito visivelmente no ponto. Pareceu-me que era tempo.

Quando finalmente te vieste paraste de te debater. Deixou de haver tensão nas cordas. Tinhas a boca entreaberta, lábios ligeiramente afastados, respirando ofegante. Pediste-me água. Soltei-te, fechaste as pernas devagar como quem já não tem nelas grande força e tentaste sentar-te à beira da cama. Disse-te “temos 10 minutos”. Ajudei-te a apanhar a roupa do chão, ajudei-te a vestir enquanto tremias de frio, recolhi tudo o que não era de cena e fechámos a porta atrás de nós. Já não chovia. Eu entrei no carro primeiro, as tuas pernas ainda não estavam firmes enquanto tentavas encontrar a chave do carro na mala.  Foi muito à justa. Demos à chave, cada um no seu carro, e os rádios ligaram-se novamente conforme o plano. Naquele dia do final de Outubro, a voz da rádio voltou à antena e anunciou boa noite uma vez mais. Era uma hora da manhã. Hora de Inverno. E o que tinhamos feito na hora anterior tinha-se tornado impossível, num tempo que nunca houve, apagado pela hora que viria a seguir, em que cada um estaria a conduzir de volta à sua vida. Inocentemente. Ao volante. Na estrada. Com tanta gente à volta, apressada, de pés nos aceleradores.