Foi há bem mais de meia hora que te deixei. Boa-noite e desejos de bom descanso. Uma porta, duas portas. E agora todo o corredor, longo, se invade por luz ténue, quebrada por sinais de saída de emergência em tom brilhante. O silêncio é quase absoluto, quebrado apenas por um quase inaudível ruído mecânico longínquo que não consigo identificar.

Estava deitado na cama, depois de um duche tardio, a folhear um jornal enquanto o sono não me alcançava , quando da porta do meu quarto emanaram sons de quem pretende entrar. Admito que a princípio os ignorei. Poderia ser engano. Não esperava ninguém. Queria dormir. Fiz silêncio e agucei os sentidos. Mas então voltas a bater suavemente à porta. Hoje sei que eras tu, mas naquele momento senti a inquietude de um som inoportuno que me obrigava a agir, a levantar-me, a questionar. Quem é, lancei eu. A tua voz, baixa, pediu-me que abrisse. Fui tomado por um conflito de surpresa e antecipação e, enrolando à volta da cintura uma toalha de banho, abri-te a porta daquele quarto de hotel. Trazias determinação no olhar, e não sabia se algo mais. Empurraste a porta com a mão direita concluindo o gesto que eu havia iniciado, e, avançando, empurraste-me com a mão esquerda contra a parede. Com o pé, devolveste a porta à condição de fechada. Em bicos de pés aproximaste-te do meu ouvido e disseste-me “És doido varrido”. Depois fizeste uma pequena pausa, durante a qual me olhaste fixamente, e ao outro ouvido remataste “e muito palhaço”.

Sou obviamente um palhaço. Consciente. Ser palhaço coloca-me na vulva das mulheres sem nunca efectivamente lá estar. Sendo palhaço faço-as rir. E quando as faço rir, movimento-lhes músculos que também participam em orgasmos. Fazer as mulheres rir é como fazê-las vir. Basta trocar uma letra, e por vezes o verbo nem interessa. Rir, vir, é como quiserem. É como quiseres. Desde que seja primário, desde que seja bruto quando é preciso, suave quando convém. Assim, bem vês, ser palhaço é tudo quanto me resta. Prometer emoções que dou sem dar. Foder-te sem te tocar, apenas com uma palavra ou até com uma sequência de ideias que te faz surgir uma emoção, um espasmo, uma bolha que aumenta até rebentar num riso incontrolável, que te preenche o sangue de químicos de bem-estar. No fim das minhas palhaçadas poderás estar tão dorida e tão cansada quanto estarias se tivesses experimentado o meu corpo. As minhas técnicas. A transformação de uma ideia num estímulo físico.

Quando terminas o teu pensamento, chamando-me palhaço, não consigo evitar sorrir. E nem sequer me incomodo. Não me insultas quando o dizes, nem eu o entendo assim. Voltas a fixar-me o olhar e vês-me sorrir. E acabas também tu por sorrir. Mas por pouco tempo, porque te coloco as mãos nos ombros e cabelo e tu lanças-te à toalha que me rodeava a cintura. Arranca-la com rudeza expondo a minha nudez. Há algum embaraço momentâneo que quebro quando lanço mão à tua roupa e te dispo. E então, por fim, ambos despidos de quase tudo – havia ainda máscaras e complexos -, ficamos encostados cada um à sua parede. Do meu ponto de vista, tenho a porta do quarto à minha esquerda. A cama mais longe, à direita, e tu estás nua à minha frente.

Como vamos fazer isto? Perguntas.

Podemos fazê-lo de várias maneiras, exclamei. Expliquei-te que podia rodar-te até ficares de costas para mim, que te podia segurar os pulsos enquanto te penetrava profundamente. Ou então, que te podia empurrar para cima da cama, com a mão sobre os teus olhos para que nada visses, enquanto trabalhavamos os músculos do baixo ventre. Ou podias saltar sobre mim, cavalgando no luar. Qualquer coisa.

Não. Não é isso. Como vamos fazer isto? Inquiriste novamente.

Uma única vez, seja noite, manhã ou tarde. Até que te venhas. Até que me venha. Até que saibas que isto é verdade e eu saiba que és assim. Até que perceba que no mundo há mais gente assim, que não és caso isolado, que não sou caso isolado. Pode ser uma hora, pode ser uma noite inteira, até partir, até doer, até rachar. Mas uma única vez. Dura. Bruta. Aparentemente fria. Mas vais partir, rachar, esmagar. Eu sei que vou.

Como vamos fazer isto? Repetes. Do meu ponto de vista, tenho ainda a porta do quarto à minha esquerda. A cama permanece à minha direita, e tu estás nua, aproximando-te de mim com sorriso jocoso e repetindo baixinho “como vamos fazer isto…”.