O Cabo Bojador é um marco importante para nós, Portugueses. Devemos a Gil Eanes, que o dobrou em 1434, a astúcia de contrariar a prática da época, de navegar com a costa à vista, e afastar-se para o mar alto onde encontrou ventos mais favoráveis para progredir para Sul. Abriu, dessa forma, o caminho à nossa navegação, que viria a tornar-nos Império. Lamentavelmente, somos hoje pálida amostra. O Bojador havia clamado inúmeras embarcações, por causa de ventos variáveis e uma plataforma continental a muito pouca profundidade. Dobrá-lo, deixá-lo para trás, dar-nos-ia a satisfação de um novo mar aberto a descobertas. Os monstros marinhos que puxavam os homens para as águas, davam lugar a sereias.

A ideia de dobrar o Cabo Bojador continua a ser importante. Para muitas coisas. É uma belíssima metáfora de que nos podemos socorrer sempre que queremos transmitir a alguém a necessidade de abrir novos caminhos, de ultrapassar uma dificuldade, vencer um desafio. E há um desafio que temos dentro das nossas casas e dentro das nossas cabeças, que nos obriga a dobrar, uma e outra vez, todos os Bojadores que se nos apresentam. O desafio de manter as chamas acesas. Já antes aludi às vontades evadidas que resultam dos dias preenchidos que temos. Já não nos sentimos obrigados a viver os dias governados pela luz do Sol. Não vamos para dentro quando a luz desaparece, deixámos de nos deitar com as galinhas, prolongamos as nossas actividades profissionais muito para lá daquilo que se pode considerar compatível com uma vida pessoal, particular, plena, e dessa forma recuamos para as nossas casas num estado de cansaço – quando não também de apatia – que é muito pouco convidativo ao aconchego, que juntando pele com pele, dando espaço às feromonas para fazer a sua magia, envolve as pessoas num suor de algo que lhes deu prazer e depois disso, mesmo que cansadas, felizes.

Entra aqui o Cabo Bojador. Assim como Gil Eanes se afastou da costa, indo além do que era a prática comum, também nós temos de vencer, nas nossas casas, a tentação de ceder ao cansaço, de não iniciar um carinho, um gesto, só porque tudo quanto nos apetece é sentar, deitar, desligar. Depois de dobrarmos o Bojador, tudo se abre à nossa frente. Vemos que valeu a pena, que ganhámos um novo ânimo para derivar em conjunto, em vez de derivarmos sós. Os monstros marinhos, ao largo do actual Sahara Ocidental, não existiam. Os nossos existem, não são marinhos, estão dentro de nós, e cabe-nos dominá-los, para que não nos afundem.