Homens, escutar é preciso!

Seduzir uma mulher é uma arte exigente, e se o é, não é apenas porque as mulheres se fazem conduzir em demasiados tons de cinzento para homens que se querem pragmáticos, mas também porque é exercício difícil esse, o de calcular a dose correcta de ingredientes para evitar cair no buraco da amizade. O buraco da amizade é um sumidouro, um ralo, um abismo que suga os incautos e lhes veda o acesso aos recônditos húmidos. Um homem que queira seduzir uma mulher para com ela conhecer as sensações da carne, não pode, jamais, tornar-se seu amigo antes de lá chegar. É que, embora as mulheres precisem de homens seus amigos, esse estado não pode preceder o do erotismo. Primeiro sejamos apenas gajos atraentes – cada um do seu modo conforme as suas limitações -, e só depois, um pouco depois, amigos.

As mulheres não têm muita queda para se apaixonar pelos seus amigos. Nós homens, aqueles que nunca foram cabrões, sabem bem que são os cabrões que as levam na juventude. Os que são mais atentos, mais amigos, são mais sozinhos. Só mais tarde na vida das mulheres é que os bons homens são valorizados. Antes, não.

Mas a minha ideia ao iniciar este texto não é perder-me em considerandos sobre aquilo que move as mulheres na juventude, quando procuram sensações mais arrepiantes. A minha ideia é, sem prejuízo para a introdução que parecia levar num outro sentido, falar aos homens sobre aquilo que é preciso fornecer às mulheres ao longo da vida, depois da sedução inicial. Se outrora escrevi para as mulheres sobre aquilo que os homens procuram – uma amiga, uma mãe, uma puta -, hoje escrevo aos homens sobre aquilo que eu sinto que as mulheres precisam. E se me preparo para partilhar com os homens, os da minha matilha, camaradas de trincheira, é porque leio sinais naquilo que elas comigo partilham que eu julgo importante passar-vos, para que vivamos todos um pouco melhor.

As mulheres precisarão, sim, de bom sexo. As mulheres precisarão, sim, de homens que as ajudem nas tarefas rotineiras que a nós afastam mas delas nunca fogem. As mulheres precisarão, sim, de um cabrão amigo, uns dias mais cabrão, outros mais amigo. Mas as mulheres precisarão, sempre, de um homem que converse com elas. Leiam-me bem, por favor: que conversem! Conversar. Ouvir, interpretar, formular ideias, responder. Demonstrar interesse. Melhor, ter efectivo interesse, não apenas procurar demonstrar uma coisa vaga, fingida. As mulheres precisam desesperadamente de quem as oiça, de quem queira ouvir os seus problemas, os seus sofrimentos, as ideias que lhes surgem durante o dia. As coisas que fizeram e as que querem vir a fazer. Connosco. Ou não. As mulheres precisam ser escutadas sem sentirem que o homem que as escuta está, naquele momento, apenas a pensar fazer com elas o pino.

Fazer isto de que vos falo, ouvir as nossas mulheres, não nos coloca perante o perigo do buraco da amizade de que vos falei antes. É, isso sim, uma necessidade para garantirmos que as nossas mulheres continuam nossas durante muitos anos, admitindo que é esse o nosso desejo. Durante a sedução, a conversa é outra. Mas numa relação já estabelecida, negar conversar com as nossas mulheres e delas ser amigo (na justa medida), é empurrá-las para outros homens que as escutem com atenção, com o perigo acrescido de que as mulheres quando derivam, dificilmente voltam.

Escutar é preciso, e escutem-me também vós, homens, porque eu não tenho disponibilidade para conversar com todas as mulheres. Falta-me tempo, e algumas das mulheres podem ser as vossas. Pensem nisso.

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