O exercício de poderes vitais

“The exercise of vital powers along lines of excellence in a life affording them scope”
Hamilton, Edith.The Greek Way. W. W. Norton & Co., 1942: 35.

Há alguns dias atrás participei numa cerimónia de finalistas do ensino secundário, e dei por mim a meditar em algo que lá ouvi. Por mais do que uma vez, alunos daquele colégio assinalavam como marcante um ensinamento de um seu professor; ter-lhes-á ensinado, possivelmente através do exemplo, que a liderança se conquista, não se impõe. Pensei naquela altura, e cheguei a assinalá-lo por escrito mais tarde, que o ensinamento, embora válido e verdadeiro, poderá não ter preparado aqueles jovens para a realidade. A realidade de que a liderança tem muito de imposto, e pouco de conquista, porquanto creio, hoje, serem poucos os capazes de a conquistar.

Quase ao mesmo tempo que pensava sobre o impacte desse ensinamento na cabeça destes jovens, noutro grupo de pessoas discutia-se a felicidade no trabalho, muito a propósito de uma série de greves anunciadas. A felicidade no trabalho está profundamente ligada à liderança. Uma boa liderança tem condições para gerar gente feliz. Uma má liderança arrasta para a lama aqueles sobre quem se impõe. Parece ter sido Hamilton (1942) quem apresentou uma frase – que julgo ser feliz – para sintetizar o que os gregos diziam ser a felicidade: o exercício de poderes vitais, seguindo linhas de excelência numa vida que lhes dê âmbito. A tradução é minha e razoavelmente livre, talvez não a mais perfeita, mas bem de acordo com a interpretação que lhe dou, do original. Ser feliz é um poder, e é um poder vital porque marca de forma inequívoca a nossa existência. Ser feliz é seguir linhas de excelência, porque não concebo felicidade na mediocridade. Ser feliz exige, portanto, espaço. Espaço para desenvolver trabalho, para produzir coisas que perduram, pelas quais nos lembram, pelas quais contribuimos para o bem-estar dos outros. Mas, precisamente porque viver feliz é exercer um poder vital, é também afrontar os medíocres. Os medíocres não toleram esse exercício de felicidade, porque se encontram de tal modo fechados sobre as suas próprias (auto-impostas) limitações, que lhes cria raiva assistir ao desenvolvimento das linhas de excelência dos outros.

A liderança, para além de melhor conquistada do que imposta, não é, por isso, compatível com acções que não sejam de excelência. Uma liderança pautada por quaisquer outros valores é, assim, um mero exercício de podridão. Uma maçã podre embalada juntamente com maçãs saudáveis. As pessoas, quando estão felizes, dão tudo quanto têm, e mais qualquer coisa. As pessoas, quando estão felizes, aplicam a sua excelência com generosidade. Compreende-se, então, porque é que pessoas felizes produzem mais, e durante mais tempo. Uma boa liderança é, assim, uma que mantém as pessoas felizes, que lhes oferece o tal âmbito, o tal espaço, para o exercício desse poder vital. Uma má liderança, por oposição, é uma que condiciona, que limita, que subtrai o espaço e instila o medo. O medo não é um motor tão forte quanto o amor (as pessoas felizes amam). O medo leva as pessoas a cometer erros, mesmo que conheçam muito bem aquilo que fazem. O medo gera insegurança, gera hesitações mesmo em quem nunca as teve, faz as pessoas desaprender, reduz sábios a ignorantes. O medo é o mecanismo pelo qual os líderes fracos e medíocres impõem a sua presença e putativa autoridade. Sabendo-se não aceites, não reconhecidos nas suas competências, produzem efeitos pelo medo. Qualquer organização ou sociedade que evolua em torno do medo, decai. Definha. É uma questão de tempo. Porém, inexorável.

Observe-se o que acontece quando se dá muito dinheiro a quem nunca o teve. Os hábitos mudam, assumem contornos de opulência, mas sem sustentação esses contornos parecem ridículos. A desorientação dá origem ao exagero, à falta de sentido de oportunidade, à inconveniência. O mesmo se passa com a liderança. Se se dá poder a quem não tem linhas de excelência, a desorientação dará lugar, também, ao exagero. O sentido de oportunidade, e da proporção, exige sustentação. Exige educação. Se não existe, há desequilíbrio no exercício do poder, há inseguranças que se disfarçam por via da arrogância, há incapacidades que se demonstram na inconstância. E, sobretudo, não há conquista. E se não há conquista, não há exemplo. E não há gente feliz. Há gente triste que não produz e que tropeça de erro em erro, porque para um líder por imposição, tudo é erro, quando ele próprio não sabe que linhas trilha.

O exercício desse poder vital que é a felicidade é, por isso, um exercício difícil. As linhas de excelência, as nossas linhas de excelência, intersectam as linhas de excelência de outras pessoas. E disso, só resultam coisas boas. Mas as nossas linhas de excelência intersectam, também, as linhas de mediocridade de outros. E disso, se não formos fortes o suficiente, só resultam coisas más, porque os medíocres, mais do que aproveitar as nossas linhas para subir, aproveitam as deles para nos fazer afundar ao seu nível. Retomo o pensamento onde o tinha, naquela cerimónia de finalistas, e é isto que eu quero que eles saibam, para que se protejam, para que criem defesas, mecanismos que lhes permitam ser cidadãos decentes, e quando isso for necessário, líderes pelo exemplo e competência, sem tropeçar na pequenez, e sem coleccionar pessoas tristes nos seus curricula.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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